A leitura ganha sentidos

também pelos sentidos

Eliane Santana Dias Debus
Doutora em Letras - Professora UFSC/CED/CNPq


O contato com o objeto livro, considerado aqui a primeira cerimônia de apropriação da leitura, leva-nos a refletir sobre as manifestações sensoriais que ele provoca no leitor. Podemos dizer que o leitor aproxima-se do livro estimulado pelos cinco sentidos.
O primeiro sentido convidado a entrar em cena é a visão. O olhar é despertado pelo colorido da capa, pela tonalidade e beleza das ilustrações, ou é afastado tal quando nos deparamos com um objeto que não possui nenhum atrativo a priori. Pelo olhar, nos aproximamos da dimensão e do volume do livro, antes mesmo de pegá-lo.
Repousado o olhar, resta-nos a fremente vontade de tocar. Tocar no objeto de fascínio. Perceber pelo toque das mãos a textura do papel utilizado para a sua confecção, a maciez ou a aspereza, pelo roçar de dedos que viram sorrateiramente as páginas. Um prazer tátil que perdura na memória leitora, como poetiza Carlos Drummond de Andrade, quando traz à tona as suas lembranças de leitura e nos descreve o prazer do toque da percalina verde da sua coleção de Obras Célebres.
Pelas narinas penetram os infindáveis odores do livro. Cheiro de livro velho, encostado na estante de um sebo, ou na última da última prateleira da biblioteca pública, esquecido pelos "consulentes” , ocupados e envolvidos na premência cotidiana.
O livro guarda o odor do que foi e do que é, dos muitos ambientes que habitou, das muitas mãos que lhe apalparam. Cheiro de livro novo, mistura de tinta, papel e álcool; um aroma múltiplo de passado e futuro em relação ao livro presente, da curiosidade de sua confecção pelo cheiro dos operários impregnado em suas folhas ainda virgens, ao desejo de abrir as páginas e literalmente cheirá-las, para matar o desejo da posse.
O som de uma página que encontra outra página, sonoridade provocada pelo papel que ressoa entre hábeis mãos, que, ligeiras, fazem virar um leque colorido o que era individualidade. O estalido provocado pela mistura de saliva, língua e papel da curiosidade infantil que corre páginas.
A pequena Maria Herta, nos seus dois anos de idade, comprovou-me recentemente que a idéia do livro comestível, propalada por Lobato, na voz da boneca Emília, nasceu provavelmente desse gesto inconsciente das crianças de se lambuzarem, bem antes de serem leitoras, desse objeto de atração. Quem dera que esse livro-pão deixe para sempre na boca da pequena o gosto de quero mais!
O livro carrega cicatrizes da leitura, denunciando as mãos que o tocaram. Rastros que são deixados pelo leitor ao longo da caminhada da leitura, como marcador de páginas, fitinhas coloridas, calendário do ano passado, dobras e orelhas, vincos, riscos, registros. Marcas que delatam a fragilidade e a fatal perenidade do livro em sua feição material.
A relação do leitor - a criança ou o adulto - com o livro ultrapassa os limites do texto impresso e ganha sentido também pelos sentidos!!

E o e-book...?!

A pergunta sugestiva desse subtítulo procura refletir sobre as transformações tecnológicas que, sem sombra de dúvida, vêm mexendo com a feição material do objeto livro, bem como sobre a relação texto/leitor. O livro de papel e tinta estaria perdendo lugar para pequenos objetos materializados (CD-ROM) e livros virtuais, entre outros? O leitor optaria pela interatividade e reconstrução de textos pelo hipertexto?
Trago duas informações da recepção desse mercado editorial e deixo-as para nos incomodar, inquietar, pensar...
O livro de João Ubaldo Ribeiro, Miséria e grandeza do amor de Benedita, lançado inicialmente no meio eletrônico (por uma livraria virtual) e comercializado a R$ 3,80, recebeu menos de 7 mil downloads. A repercussão na mídia e a baixa procura do público consumidor causaram surpresa até mesmo ao escritor que se viu, de repente, com mais espaço de crítica nos cadernos de informática do que nos culturais.
No Salão do Livro de Paris, em março de 2001, constatou-se que na Europa, em especial na França, o livro eletrônico alcançou somente uma pequena parte do mercado e, ao contrário do que se pensava, ele não é motivo (ainda) de ameaça ao livro tradicional e à leitura por ele propiciada, como alguns acreditavam. O mercado eletrônico do livro e até mesmo a sua forma virtual acabam por estimular a curiosidade pelo livro como o conhecemos, trazendo a público a curiosidade por obras que já estavam no esquecimento.
Resta-nos refletir: a nossa relação com a leitura ainda está muito vinculada ao prazer tátil ou ainda não descobrimos o prazer dessa nova constituição e feição do livro?