a floresta e o estrangeiro

para pequenos e grandes leitores

Eliane Santana Dias Debus
Doutora em Letras - Professora UFSC/CED/CNPq



A narrativa poética A floresta e o estrangeiro, de Alberto Martins, publicado pela Companhia das Letrinhas, em 2000, recebeu merecidamente o selo de Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). O livro tem como público alvo a criança e o adolescente, como fica explícito em sua linha editorial e na sua ficha catalográfica. Porém, a identificação do "adulto" com o eu poético, o estrangeiro, é inevitável. Talvez pela experiência de leitura e de vida, os leitores grandes encontram em sua trajetória um pouco dessa angústia de estar em outra terra, em outro lugar, mesmo que por opção: Estrangeiro é quem
mudou de paisagem
e fez da viagem
um modo de estar. (p. 6)
Entre o novo e o desconhecido, entre a angústia e a solidão, entre a língua e o silêncio, entre a dor de estar estrangeiro e "pensando em dar um jeito/de sumir sem dar na vista", ele, o estrangeiro, encontra a floresta: um mundo de cheiros, cores e sons.
Diante daquele outro nunca visto "de estranhíssima arquitetura", nasce o desejo de modificar, catalogar, interferir. Mas ele descobre, através do inusitado ambiente e das personagens daquela floresta, para quem a alegria e o brincar são ofícios regulares, que a mudança, se necessária, tem de ser no eu e não no outro.
O poema foi composto a partir de aquarelas e guaches de Lasar Segall, daí a profusão de imagens que se soltam a cada página: uma floresta de vários tons, elefante a tocar atabaque, homens africanos, antílopes, borboletas com cara de meninas e bichos cor-de-rosa. Todas essas imagens são contempladas por Alberto Martins no esmerado projeto gráfico de Hélio de Almeida.
A floresta e o estrangeiro é um livro para ler e ver, para encontrar, nas palavras, o colorido da imagem e, nos tons e sobretons das gravuras, a intenção do dito. Um livro que apresenta as possibilidades sempre encantatórias da construção das palavras e que estabelece o diálogo com os pequenos e os grandes leitores.