Entrevista com a escritora catarinense

Maria de Lourdes Krieger


A livraria Cultura tem
Ana levada da breca
Moderna, 1989
A livraria Cultura tem
Vovó quer namorar
FTD, 1990
A livraria Cultura tem
Irmão-sanduíche
Moderna, 1993

Maria de Lourdes Krieger é professora e escritora, autora de Um amigo muito especial, Vovó quer namorar, Irmão sanduíche, Brincando de olhar estrelas, Segredos do coração, Ana levada da breca (que já vendeu mais de 150 mil exemplares), O monstro que mora em mim, dentre outros livros muito amados por crianças, jovens e adultos.

Balainho — Quem surgiu primeiro: a professora ou a escritora?
Lourdes — Professora e escritora surgiram simultaneamente. Lembro-me de brincar de escolinha pelos 9 anos, às vezes com alunos imaginários, outras com minhas irmãs mais moças; intercalava as aulas com histórias que contava para a classe. Também registrava em caderno outras histórias, principalmente em torno de animais.

Balainho — Como foi a sua descoberta da literatura? Quem mediou esse encontro?
Lourdes — Acredito que a descoberta da literatura tenha ocorrido com as histórias que meu pai nos contava. Antes de dormirmos, ele ia ao quarto dos rapazes e, depois, ao nosso, das meninas, e nos deliciava com João e Maria, os Três Porquinhos, com todas as maravilhas dos tradicionais contos de fada. Se estava com pressa, por conta de algum compromisso, contava uma só, no corredor, às vezes bem abreviada. Aos domingos, havia as histórias que ele inventava, fantasiosas e sempre acompanhadas por ilustrações rabiscadas em folhas de papel. E tínhamos livros, revistas, o Tesouro da Juventude, um mundo de encantamento.

Balainho — Qual é, sob seu ponto de vista, o papel da escola na formação de leitores?
Lourdes — A escola exerce um papel fundamental na formação de leitores, principalmente a que trabalha com alunos oriundos de famílias de baixa renda. Para estas, o livro é artigo de luxo, frente a tantas necessidades que enfrenta; se a escola não oferecê-la, quando a criança vai entrar em contato com ele? Quando poderá descobrir que ler é prazeroso? Chegando à casa, cansados, depois da jornada de trabalho, geralmente exaustiva, os pais terão ânimo para entreter seus filhos com histórias, ou para eles próprios se interessarem por um livro? É mais que necessário que a escola conte com um acervo rico em quantidade e qualidade e que esse acervo fique ao alcance dos alunos, continuamente.

Balainho — Você recebe muitas cartas de seus leitores. Como é essa experiência?
Lourdes — Receber cartas de leitores é ótimo. Eles comentam o texto, relacionam personagens ou passagens com suas vivências, questionam, perguntam por detalhes que eu julgava nem perceberem, apresentam sugestões para o desdobramento desses detalhes ou da própria história.

Balainho — Em suas visitas às escolas para conversar com alunos e professores, qual tem sido a sua impressão sobre o trânsito do livro, as histórias de leituras ou não-leituras das crianças e adolescentes no espaço escolar?
Lourdes — Infelizmente e por uma série de razões, nem sempre os professores são (bons) leitores. Se desconhecem o livro como algo essencial às suas vidas, como transformar os alunos em leitores apaixonados e críticos? Mas é fácil perceber que, sempre que o aluno encontra ambiente propício à leitura (e isso, logicamente, inclui um acervo adequado), ele se descobre nos muitos livros que passa a ler.

Balainho — A partir de determinado momento, perdemos os leitores. Na adolescência, no colegial, lêem menos, ou não lêem mais. Como escritora e educadora, qual é a sua opinião sobre esse “fenômeno”?
Lourdes — Na adolescência, os jovens estão às voltas com suas inseguranças, dúvidas e desejo de auto-afirmação. Se encontram textos com que possam identificar-se, ou se se acostumaram a ter no livro um companheiro, não haverá problema. Acontece, no entanto, que no 2º grau há quase uma ruptura da leitura-prazer. O aluno vê-se obrigado a ler os clássicos de nossa literatura, sem a devida preparação para a importância de cada obra em seu devido contexto. Acaba conhecendo o Machado de Assis romântico e perdendo a ironia, o humor, o estilo refinado de suas obras da fase realista.

Balainho — Dentre os livros que você publicou, quais os que têm conquistado mais leitores, ou mais OS leitores?
LourdesAna levada da breca exerce grande atração sobre as crianças. Vendeu mais de 150 mil exemplares e traz cartas bem curiosas; os leitores questionam a atitude de Lia e da mãe de Ana, pedem continuação da história. Antes dele, Recordações de um agente secreto, que também vendeu muito, foi o que me proporcionou maior contato com os leitores. Vovó quer namorar e Segredos do coração também vão muito bem. Particularmente, meu preferido é Um amigo muito especial.

Balainho — Que livros de LIJ que você lê (leu) e indica?
Lourdes — Gosto - e recomendo - tudo que Bartolomeu Campos Queirós escreveu: poesia pura. Também todos os livros de Lygia Bojunga Nunes e Ana Maria Machado. As crônicas de Cecília Meireles (teoricamente escritas para adultos), a poesia de José Paulo Paes, as aventuras da Turma do Gordo, com que João Carlos Marinho nos diverte (acabei de ler o último e passá-lo para uma criança). As histórias clássicas: de fadas e de aventuras, como Robson Crusoé, Dom Quixote, etc. A série Harry Potter, cujos defeitos não anulam o encantamento com que envolve crianças e adultos. Há tantos livros bons! É preciso que o educador os descubra, para levá-los à criança - ou levar a criança ao livro (à livraria), para que ela mesma possa fazer suas descobertas e escolhas.