O Armazém Literário
Tânia Piacentini
Graduada em Letras (UFSC)
Doutora em Educação (UNICAMP)
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Direitos e desejos de leitor
Lembrando a passagem recente da Semana do Livro e da Biblioteca, transcrevo a saudação
às "Excelentíssimas crianças", com que o escritor e professor francês Daniel Pennac,
autor dos livros Comme um roman e Lê droit de lire, encerrou uma palestra
— para adultos — também intitulada O Direito de Ler:
Se eu fosse vocês, a primeira coisa que pediria à professora
ao entrar na sala de aula pela manhã seria:
— Professora, leia uma história para nós.
Não existe melhor maneira de começar um dia de trabalho!
E, no final do dia, quando a noite chega, meu pedido ao adulto mais próximo seria:
— Por favor, conte uma história para mim.
Não existe melhor maneira de escorregar nos "lençóis da noite".
Mais tarde, quando vocês já forem grandes, lerão para outras crianças aquelas mesmas
histórias.
Desde que o mundo é mundo e que as crianças crescem, todas essas histórias escritas
e lidas têm um nome muito bonito: literatura.
Se a realidade no tocante a livros e bibliotecas — basta citar a quantidade:
duas únicas bibliotecas públicas, uma estadual e outra municipal na cidade*,
capital de um estado do desenvolvido sul — não nos proporciona motivos para festejos,
resta expressar nosso desejo de mudança, numa saudação a todos os "excelentíssimos leitores",
de todas as idades. Os que temos o privilégio de pertencer a uma comunidade que valoriza
o livro e a leitura porque em algum momento de nossas vidas uma pessoa, uma circunstância
ou um lugar nos propiciou o primeiro encontro com uma história, um livro, uma biblioteca,
talvez, podemos nos congratular com isso e desejar que:
- se forme uma biblioteca pública em cada bairro de cada cidade, uma biblioteca em cada comunidade;
- cada uma dessas bibliotecas tenha verba abundante, a cada ano, para renovação de seu acervo;
- os bibliotecários dessas bibliotecas, assim como os professores das escolas, pré-escolas, jardins de infância e creches de todo os bairros sejam também leitores, pois quem não vive a paixão da leitura não pode e não sabe estimular a gostar de ler;
- os escritores, ilustradores, capistas, artistas gráficos, editores, gráficos, enfim, todo os envolvidos na feitura do livro tenham cada vez mais imaginação, formação e melhores condições de trabalho para criar e fazer livros sempre mais belos e da melhor qualidade literária;
- os editores possam aumentar a tiragem de seus livros e conseqüentemente diminuir o preço final do exemplar, pois a demanda terá crescido com a compra de vários exemplares para cada biblioteca e com o maior número de leitores "viciados" em leitura que acorrerão às livrarias;
- os bibliotecários e professores possam receber e procurar informações sobre novos lançamentos, em jornais e boletins feitos por especialistas descompromissados com o mercado, tenham tempo para a leitura e façam, ouvindo também os novos leitores, sua própria seleção dos livros;
- todos os adultos envolvidos na política do livro e da leitura, professores e editores dispensem, de uma vez por todas, a abomináveis fichas de leitura que atravancam o caminho do leitor escolar;
- todos os que sabem ler sejam verdadeiros amantes do livro, para que, com pais, avós, tios, irmãos, babás, possam compreender e valorizar os "me conta uma história", "lê este livro pra mim" ou "me deixa ler em paz". Além, é claro, de exercer consciente e prazerosamente o direito de ler, em casa, em bibliotecas, nas praças, nas filas, nas livrarias nos cafés, nas praias...
Estou pedindo muito? Não creiam, sou realista e não estou exigindo nem o impossível!
* Referência à cidade de Florianópolis.
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