Tudo está nos livros
que tem os livros? Esta era a pergunta que eu me fazia quando tinha uns três ou quatro anos, e costumava, sentar num banquinho na livraria de meus avós.
Minha avó sentava-se no caixa e minha mãe esperava, atrás do balcão, pelos compradores. Atrás dela, as estantes iam até o teto e havia uma escada bem alta cujas pontas, curvadas em ganchos, se prendiam a uma barra de ferro, para que pudesse correr da direita para a esquerda, fazendo com que mesmo os livros que estavam nas, prateleiras mais altas pudessem ser alcançados. E eu me perguntava: "Por que tantos livros?" Com certeza eles tinham alguma coisa, mas o quê?
Não pense que eu me chateava! Se um cliente entrava na loja, eu tentava adivinhar se ele pediria um livro das prateleiras de baixo ou de cima. Minha mãe, inteligente e ágil, sabia exatamente onde estava cada um dos livros. Subia as escadas, se fosse preciso, e descia com um livro de capa azul, vermelha ou roxa. Eu tinha orgulho de minha mãe - e a cada dia ficava mais curiosa para saber loque podia haver nos livros. Nas prateleiras de baixo também havia livros azuis, vermelhos e roxos, cheios de, pequenas letras pretas, mas nenhum deles tinha imagens coloridas como os meus.
Em casa, todos liam. Minha mãe, meu pai, meus avós. Eu observava seus, rostos quando liam. Às vezes sorriam, às vezes ficavam sérios. De vez em quando, viravam rapidamente uma página e eu me perguntava o que acontecia com eles, enquanto liam. Não pareciam ouvir, quando eu falava e, se me escutassem, era como se estivessem voltando de um lugar muito longe. Por que não me levavam com eles? O que têm os livros? Qual é o segredo que não querem me contar?
Mais tarde, aprendi a ler. E descobri o segredo dos livros: eles tinham tudo. Neles não havia só fadas e gnomos, princesas e bruxas malvadas, mas eu e você, nossas alegrias, nossas preocupações, nossos desejos, nossas tristezas. O bem e o mal, a verdade e a mentira, a natureza e o universo – encontramos tudo isto nos livros. Basta: abri-los para compartilhar todos os seus segredos.
Eva Janikovski - Hungria Trad. de Elda Nogueira
Fonte: Boletim nº22 da FNLIJ (jan. 2001)
De pai pra filho...
uando criança, à sombra das árvores, várias vezes vi meu pai entregando-se à leitura de velhos livros. Meu pai nunca me falou sobre o que lia, nem sobre os livros, mas, profundamente, aquela cena, repetidas vezes, me marcou. Ele, um homem semi-analfabeto, às voltas com oito filhos, em meio aos desafios da vida, dava-se ao deleite de saborear velhos livros!
Diante do "pelotão de fuzilamento" de uma mídia bestializada, lembro-me daquela cena. Não acredito em professores não-leitores. Vou à escola todos os dias e leio para o meu filho Lucas e seus coleguinhas as mesmas histórias que nós lemos um para o outro em casa. O Lucas vai lembrar-se, às vezes, de sua primeira escola, mas, certamente, lembrará repetidas vezes destas cenas de leitura.
Simon S. dos Santos Nova Mamoré / Rondônia
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