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Entrevista com o escritor
Rogério Andrade BarbosaRogério Andrade Barbosa é professor e escritor, graduado em Letras pela Universidade Federal Fluminense e em Literatura Infantil pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. É também ex-voluntário das Nações Unidas na Guiné-Bissau, na África. No período em que residiu nesse país, recolheu diversos contos, mitos e lendas originários de grupos étnicos africanos, a partir dos quais criou textos encantadores para crianças, como Bichos da África (Melhoramentos), Contos ao redor da fogueira (Agir), o premiadíssimo Duula A Mulher Canibal e muitos outros. Trabalha na área de Literatura Afro-brasileira e em programas de incentivo à leitura, proferindo palestras e ministrando cursos, além de viajar por todo o Brasil com os projetos O Escritor na Cidade e Proler, da Fundação Biblioteca Nacional. É membro da Society of Children's Book Writers and Ilustrators. Balainho — Você é um contador que escreve, um escritor que conta. Como é esse diálogo? Rogério — Esse diálogo, altamente prazeroso, é feito durante as palestras, oficinas, cursos, contações de histórias e visitas que faço a escolas e universidades pelo Brasil a fora. Balainho — O que é, em resumo a AEI-LIJ? Rogério — Uma Associação que tem como objetivo unir e defender os direitos e interesses de nossa categoria. Balainho — Qual é o balanço que você faz destes 02 anos de existência da Associação - AEI -LIJ? Rogério — O balanço é bastante positivo. Em 2 anos conseguimos cadastrar cerca de 250 profissionais em vários estados e temos representantes regionais em São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Procuramos, sempre que possível, marcar nossa presença em eventos literários como as Bienais do Livro no Rio e em São Paulo, onde realizamos Encontros Nacionais de autores de LIJ. O próximo deverá ser durante a tradicional Feira do Livro de Porto Alegre. Ano passado, tivemos um estande próprio no I Salão do Livro para Crianças e Jovens e vamos repetir a dose no fim do ano. Temos um assessor jurídico que responde as dúvidas, que nos chegam de autores novatos com relação, principalmente, a contratos. Em abril, por exemplo, promovemos na Casa da Leitura, um seminário de três dias intitulado: Questões Atuais em LIJ, com palestrantes como Marisa Lajolo e Italo Moriconi. Balainho — Temos uma literatura infantil e juvenil que está entre as melhores do mundo. Por que, apesar disso, a mídia resiste tanto em ceder espaço para o gênero? Rogério — Por puro desconhecimento e, também, por um velho preconceito que estamos tentando derrubar: a desvalorização da literatura infantil e juvenil perante à literatura adulta. Balainho — Como Presidente da AEI-LIJ, qual é a sua avaliação sobre o mercado de LIJ no Brasil? Rogério — Somos o segmento que mais vende no mercado. Quatro vezes mais do que a literatura adulta. Portanto, temos de ser valorizados e respeitados. Balainho — No Brasil, os livros infantis são vendidos através de redes escolares armadas pelas editoras e praticamente não passam pelas livrarias. Você acha que isso explica, em parte, a pouca visibilidade da literatura infantil e juvenil (Não há corrida às livrarias mesmo para as obras de altíssima qualidade - Escritores de LIJ premiadíssimos, muitas vezes, são desconhecidos do grande público) por que, com tantos ótimos escritores não se arma para eles estratégias de venda? Rogério — Os livros infantis e juvenis são vendidos nas escolas por causa da inexistência de uma rede de bibliotecas e livrarias fora dos grandes centros urbanos. Daí essa invisibilidade dos autores de LIJ na mídia. Acho nossos editores muito acomodados. Já pensou se tivéssemos um marketing como os da série Harry Potter? Duas de nossas autoras, Ana Maria Machado e Lygia Bojunga Nunes, ganharam o Prêmio Nobel da LIJ, o Hans Cristian Andersen. Isso sem falar em Ziraldo, Pedro Bandeira e Júlio Emílio Braz, que vendem uma enormidade. Balainho — Seus livros abordam temáticas distintas. Em alguns você faz o resgate de contos da tradição oral. Já seus livros para o público juvenil enfocam elementos da realidade social. Como você "administra" essas duas vertentes de sua produção literária? Rogério — Os contos tradicionais africanos e o folclore brasileiros, temas de muitos de meus livros infantis, me encantam por sua riqueza e diversidade. Já para o público juvenil, me recuso a escrever histórias do tipo água com açúcar. Nessas obras abordo as mazelas e diferenças sociais em nosso país. Daí assuntos polêmicos como: prostituição infantil, tortura, violência, crianças de rua, drogas, miséria etc. Mas gosto de escrever histórias mais leves também, com muita aventura e ação. Balainho — Quem são os Griots e como foi o seu contato com estas formosas criaturas? Rogério — Os Griots são os contadores tradicionais espalhados pela África. Vivem de contar histórias de aldeia em aldeia. Uma profissão passada de pai para filho há várias gerações. Tive contato com essa gente fabulosa durante os dois anos em que trabalhei na Guiné-Bissau como professor voluntário a serviço das Nações Unidas. Balainho — Seu livro Duula, A mulher canibal: Prêmio Altamente Recomendável da FNLIJ - Finalista do Prêmio Jabuti de Ilustração – Selecionado para o catálogo de Bolonha 2001 (FNLIJ) - Prêmio White Ravens (Biblioteca de Munique) - resgata um conto da tradição oral da Somália. Quem é Duula no imaginário do povo somali? Rogério — Duula é um dos muitos mitos da tradição oral africana. Monstros e gigantes assustadores povoam o imaginário somali. Através dessas narrativas, as crianças percebem a importância de pertencer a um clã, a um povo, que lhes oferece proteção e cuidados. Balainho — Você tem notícias diretas ou indiretas sobre a repercussão de suas obras entre os leitores? Que livro seu foi mais festejado pelos leitores? Rogério — Recebo cartas e e-mails de várias partes do Brasil e também do exterior. Faço questão de responder a cada um dos meus leitores (randbar@gbl.com.br). O livro que faz mais sucesso no exterior é uma série de 4 volumes, publicada pela editora Melhoramentos: Bichos da África (Lendas e Fábulas). Só no México, vendeu mais de 500 mil exemplares. No Brasil, os mais vendidos são: Rômulo e Júlia, os Caras-Pintadas (FTD). Um Romeu e Julieta moderno, passado durante a época do Presidente Collor. E pela Melhoramentos: Na Terra dos Gorilas (Juvenil) e Lutando por Direitos (infantil). Balainho — Escritores e ilustradores de LIJ, de Santa Catarina, que quiserem filiar-se à AEI-LIJ, o que deverão fazer? Rogério — Para filiar-se, o escritor precisa ter, pelo menos, um livro publicado. O autor pode preencher o cadastro em nossa página na internet: www.docedeletra.com.br/aeilij. |