Leiturização...?

Mas o que é isso?

Rosilda da Silva
Acadêmica de Letras - 5º ano
UNIVILLE - Joinville SC

A questão leitura aqui no Brasil, pelo menos no que diz respeito às escolas públicas, tem se mostrado um fato preocupante; e isso pode-se observar pelo crescente aumento de escritos teóricos nessa área e pelos temas e/ou minicursos apresentados em congressos, simpósios e cursos de capacitação. Com base nesse fato, foi realizado um estágio de observação em uma das escolas públicas de Joinville, e o que se viu foi alarmante. Alunos chegando e saindo do Ensino Médio sem noção do potencial de leituras e/ou leitores que podem estar camuflados nos decodificadores que realmente são.
Todos sabem a diferença entre ver e olhar, ouvir e escutar. Mas o que eles não sabem é que ler não é apenas passar os olhos por algo escrito e depois fazer uma versão oral do mesmo; ler não é sinônimo de decodificar.
Chegar ao Ensino Médio como decodificador (ainda que bons decodificadores) é um fato que preocupa e merece atenção, afinal de contas, que profissional estamos esperando ou lançando no mercado de trabalho? Que espírito de cidadânia esperar de jovens que tendem ao ilestrismo?
É preciso reverter essa situação, esse quadro; é preciso ensinar-lhes a ler. E o único requisito que se pede a um iniciado na arte da leitura é que seja uma pessoa questionadora de mundo. E esse é o intento, tornar-lhes questionadores, sensíveis às diversas possibilidades de leitura, amantes e cúmplices do maravilhoso e mágico mundo que há por trás das linhas de todo escrito.
A escrita, sabe-se que é uma ferramenta do pensamento e da comunicação; a partir dela constroem-se modelos teóricos e, partindo da experiência e da visão pessoal, estabelecem-se relações entre os seus elementos. Tanto através da leitura quanto por meio da produção textual, é necessário que se recorra à escrita para a elaboração de um ponto de vista ou teorizar sobre, é preciso que haja leituras e releituras do tema.
Mas, questiona-se, conseguirá um indivíduo não questionador, sem o espírito de descobertas, não sensível às diversas possibilidades de leituras e respostas, elaborar um ponto de vista detentor de um sentido?
Se, conforme Marisa Lajolo (1988: 62), “é importante que haja um sentido crítico norteando permanentemente a atitude do professor, juntamente com a classe, ao entregarem-se ao jogo do texto”, acredita-se que com essa entrega madura, ativa e envolvente, o conjunto professor/aluno possa atingir objetivos até então não partilhados, não vivenciados e que ambos de “mão dadas” possam construírem-se como sujeitos que constróem o mundo.
Fica fácil imaginar então que, com a utilização em sala de aula de textos abertos e questionadores, bem como a monitoria mediadora do professor, instigando e motivando os alunos, e levando-os à criticidade, a plurissignificação se fará presente. Além disso, a projeção de suas leituras de mundo para contextualizar e inferir nos escritos, o que por sua vez deixará às claras que a fronteira que separa o ilestrismo, que mantém os indivíduos à margem e impotentes, da leiturização pode ser facilmente transposta, desde que haja o interesse e o desejo pelo ato de ler, ou até que essa paixão pela leitura lhes seja incendiada e que tornem-se aluno e livro/texto e leitor amantes e cúmplices dos novos valores que serão descortinados.
Mas, para que valores como esses venham à tona, torna-se necessário que nós, professores, oportunizemos através da leiturização, a desconstrução da leitura linear, horizontal e mecanicista, levando nosso alunado a argumentar a favor ou contra as idéias do autor; a ampliar os conhecimentos através da leitura, a posicionar-se criticamente frente ao texto, a desvendar a intencionalidade do autor e principalmente levá-los a reconhecer a leitura como agente de equilíbrio social.
E, tendo em vista tudo isso, pode-se afirmar que é preciso, ainda, que o leitor sinta o desejo de ler, de mergulhar no mundo mágico da leitura e de desenvolver crítica, ativa e construtivametne as habilidades de compreensão e interpretação. Há uma outra necessidade também, muito importante, a necessidade de uma pulsão do saber, na qual o espírito de descobertas, o prazer em pesquisar, o interesse pela observação, o gosto pela leitura e o deleite em viajar dentro das páginas de uma obra ou nas entrelinhas de um texto.
Jean Foucambert afirma, A leitura em questão (1994: VII), que
Numa sociedade hierarquizada com base em classes sociais, a distribuição desigual das técnicas de acesso aos bens simbólicos (nesse caso, a leitura) reforça e realimenta as características excludentes dessa sociedade. Poucos são letrados (e não se busca saber o que os torna letrados) enquanto muitos são apenas alfabetizados (e indaga-se por que alfabetizados não se tornam letrados). Mas tanto os alfabetizados quanto os não-alfabetizados são frutos do mesmo processo de exclusão, o ilestrismo.
E, para os que se encontram em uma dessas três situações: alfabetizado, não-alfabetizado e iletrado, torna-se necessário uma tomada de decisão urgente, que vise estabelecer condições para uma prática social mais efetiva, que lhes dê oportunidade para participar dos processos de decisões, que permita alargar-lhes suas leituras de mundo e que os leve a questionamentos.
Ainda segundo Jean Foucambert, essa necessidade que existe é a de “se conceber uma política de leitura que ataque primeiro a única causa da não-leitura: o estado de impotência, irresponsabilidade, resignação, exclusão de quaisquer situações de análise, reflexão e decisão”, faz-se necessária uma política de leiturização.
Essa política de leiturização requer novas condições e abordagens, que responda às necessidades individuais e sociais desses novos tempos pelo qual passamos, assim como a alfabetização satifez as exigências do século passado.
Leiturização é, então, saber fazer a leitura do que não está escrito, mas talvez sugerido no texto; é descobrir as mais diversas possibilidades de leitura que há para um mesmo escrito, é a pulsão do saber correndo nas veias, é brincar de o-que-é-que-o-autor-quer-dizer, sem decodificar, mas indo ao encontro, devassando e mergulhando na obra. O que haverá de importar realmente depois disso, não é o que no texto estava escrito, mas sim, a descoberta, a coisa nova que pode emergir do texto, e o novo indivíduo que com ele nasce, porque conforme Karl Marx (1986: 28) “ninguém continua o mesmo depois de ser abalado por uma obra de arte”.
Entrentanto, a escola é a entidade que recebe a influência de ensinar a ler, mas ela tem interpretado essa tarefa de modo mecânico, linear, estático e horizontal, e é por isso que Regina Zilberman afirma, em Leitura em crise na escola: as alternativas do professor (1995: 35), que “ler confunde-se, pois, com a aquisição de uma hábito e tem como conseqüência o acesso a um patamar do qual não mais consegue regredir; porém a ação implícita no verbo em causa não torna nítido seu objeto direto: ler, mas ler o quê?
O questionamento de Zilberman é, certamente, o mesmo que de muitos outros professores: o que levar aos alunos? Como fazê-los absorver? De que forma? Realmente há uma crise na escola, uma crise existencial do ato de ler e que só poderá ser solucionada quando a leitura for colocada como algo vital, indispensável como o ar que respiramos e o alimento que ingerimos, quando ela for a nutrição para a alma.
E, ainda, quando os professores juntamente com seus alunos, dentro do âmbito escolar (mas não necessariamente e somente nele) derem-se conta do que Daniel Pennac, em Como um romance (1993: 54), estabelece como
Direitos imprescritíveis do leitor
1 — o direito de ler
2 — o direito de pular páginas
3 — o direito de não terminar um livro
4 — o direito de reler
5 — o direito de ler qualquer coisa
6 — o direito ao bovarismo
(doença textualmente transmissível)
7 — o direito de ler em qualquer lugar
8 — o direito de ler uma franse aqui e outra ali
9 — o direito de ler em voz alta
10 — o direito de calar
Urge então que nós professores concedamo-lhes direitos que proporcionamos a nós mesmos, ou seja: “os direitos imprescritíveis do leitor”, pois é desta forma que a leitura flui e é dessa forma também que a leiturização bem bater à nossa porta.


Referências bibliográficas
  • AGUIAR, Vera Teixeira e outros, Org. Regina Zilberman. Leitura em crise na escola: as alternativas do professor. 9.ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1988.
  • BRAGATTO FILHO, Paulo. Pela leitura literária na escola de 1º grau. São Paulo: Ática, 1995.
  • FOUCAMBERT, Jean. A leitura em questaão. trad. Bruno Charles Magne. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.
  • MARX & ENGELS. Sobre a literatura e a arte. 4.ed. São Paulo: Global, 1986.
  • BRASIL. Secretaria da Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: Língua Portuguesa. Brasília: MEC, 1997.
  • PENNAC, Daniel. Como um romance. 2.ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.