Conversa vai... conversa vem...
Sandra Isabel Gonçalves dos Santos
Alfabetizadora da Escola Jairo Callado - Florianópolis - SC


Balainho — Você alfabetiza com as tintas do sonho... da poesia... da literatura....
Sandra — A literatura é o carro chefe do meu trabalho. Sem ela eu não consigo estimular as crianças. Elas querem aprender a ler ligeiro pra poder ler as histórias elas mesmas, as histórias que elas ouvem fascinadas e vão encantando-as dia após dia. Então o aprendizado das letras vai acontecendo com esse suporte lúdico, prazeroso. A literatura vai mostrando que há música nas palavras, há beleza, elas são mágicas, vale a pena o esforço de aprender a ler pra descobri-las, experienciá-las.
Se os educadores ouvissem as crianças, eles jamais deixariam de trabalhar com a literatura. As crianças pedem, querem ouvir histórias. Pedem pra contar de novo e de novo. Prova de que elas amam a literatura. Quem começa a experienciar um trabalho com literatura se apaixona de tal forma que não volta mais atrás.
Por sermos fruto da escola do livro único, padronizado (didático), não quer dizer que tenhamos que perpetuar a mesma prática. Podemos buscar outros caminhos e a literatura abre muitas possibilidades para enriquecer as aulas. A literatura resgata a fantasia, o lúdico, a brincadeira, a despreocupação, o faz-de-conta. A criança está muito presa ao real imediato que exige que elas fiquem adultas muito rápido, então a literatura oferece um mundo de encantamento que só vai ajudar a criança.
Alfabetizar com "al-el-il-ol-ul" é terrível!! Agora alfabetizar tendo a literatura como aliada, é uma alegria para a criança e para o professor; buscar o conhecimento pelo caminho da fantasia, da brincadeira.
A gente vê as crianças limitadas a um livro didático quando podiam estar voando, abrindo-se para o mundo da leitura com todas as possibilidades que esse mundo maravilhoso oferece. Dá até pra notar a tristeza das crianças que não tem literatura. A sala parece sem vida, tudo mecânico, sem sonho, sem prazer.
Fiz uma pesquisa para um trabalho da Universidade chamado "O Fracasso na Alfabetização". Notei que os alfabetizadores estão muito presos a esquemas, padrões, preocupados tão somente com a coisa da lição didática fria e seca. Quando perguntei a uma educadora: "trabalhaste com literatura?", ela respondeu enfática: "Às vezes eu mando pra biblioteca, mas atrapalha a aula sobre os assuntos mais importantes." Quem disse que os assuntos mais importantes não estão na literatura?
Nas classes em que o educador vivencia a literatura com as crianças há mais alegria, as vivências são mais ricas, elas não têm medo de errar, de fazer perguntas, de expressar o que sentem. Não ficam com medo de "dar bola fora" pois "isso foi o que a minha cabeça pensou" - dizem.
Quando as crianças são leitoras, a relação delas com o professor é de amizade e é uma relação leve, de respeito e liberdade de dizer o que pensam.
As crianças não leitoras são paradas, não reivindicam coisas melhores pra elas, aceitam o que tá ali no livro didático, seguem passivas, não se expandem, pois sem leitura não desenvolvem memória discursiva, não aprofundam o pensamento.
Quando gosto de um livro, me entusiasmo tanto que acabo influenciando as crianças para gostarem também. O Segredo do Rei, A Bela Borboleta, A Casa Sonolenta, A Bruxa Salomé, Quero Casa com Janela (aquela galinha tão chata que queria uma casa com janela), O Gato Solitário, A Margarida Friorenta, são alguns dos livros que adoro ler com eles na sala ou na biblioteca.

Balainho — E as memórias de leitura da alfabetizadora Sandra Isabel.....
Sandra — Na escola primária não tive histórias, livros nem pensar, só cartilha. Biblioteca tinha mas era para fazer cópias para ficar de castigo. Quem incomodava o diretor era trancado na biblioteca e não podia mexer nos livros. Se ainda pudesse mexer nos livros, o castigo seria prêmio! Custei a me alfabetizar com os métodos decorados. "O cachorro toma água na cuia - ca-co-cu". No ginásio mandavam ler os clássicos, mas a gente não tinha memória literária nenhuma, então ficava difícil entender a linguagem e acabávamos achando chato. Faziam trabalho cerrado em cima, questionários, fichas. Em vez de saborear o livro ficávamos penando pra tirar a idéia central!
No 2° grau (magistério), nem indicavam livros. Só leituras técnicas sobre como fazer assim e assado pra dar aulas. Não líamos nada que fizesse a gente refletir sobre a formação de leitores, que é a nossa tarefa principal!!!!
Na faculdade de pedagogia a Literatura infantil é dada na última fase, como um apêndice, e não contemplou os temas que deviam ser discutidos, as questões da leitura, análise de autores e obras pra conhecermos e refinarmos nossos critérios de escolha, a importância da literatura nos primeiros anos, temas que fui estudando sozinha e com a ajuda de colegas apaixonados por leitura.

Balainho — Dá pra notar o quanto você valoriza a biblioteca em seu trabalho...
Sandra — A biblioteca é o coração da escola. A primeira vez que trago as crianças para começar a descobrir os encantos da biblioteca faço sempre um ritualzinho, uma preparação que marque pra sempre aquele dia. Aqui no Jairo Callado, a Denise, que é responsável pela nossa biblioteca faz a Hora do Conto e dinamiza o circuito do livro, duas atividades fundamentais: ela também associa a música à literatura e o resultado é mais surpreendente e rico. Além de contar histórias ela canta com eles canções do folclore, acalantos pra introduzir as histórias. Este ano, com a ajuda dela, o 1º dia na biblioteca foi lindo. Contamos a história A bela Borboleta do escritor Ziraldo. Escolhemos essa história porque já na primeira página ela faz alusão a todos os personagens clássicos da literatura, já dá a idéia de uma porção de livros e isso tem a ver com biblioteca. A Denise foi puxando e eles foram lembrando e contando as histórias que o livro cita, como a do Gato de Botas, Patinho Feio, A Bela Adormecida. Nesse dia, após a vivência desse texto do Ziraldo, a Denise começou o circuito do livro e foi uma festa cada uma escolhendo o livro que ia levar para casa. As crianças fizeram uma borboleta de papel, botaram no dedo e saíram voando. Na saída da aula, foram encontrar os pais e contavam que tinham ido à biblioteca, que lá tem muitos livros e que podiam levar pra ler em casa. Sabem também que a borboleta só voa se o livro for lido. Livro fechado a borboleta não voa!
A Denise incentiva muito a leitura de poesias; ela faz murais; lê poesias na Hora do Conto, faz um livro com poesias que as crianças escrevem, motivadas pela leitura de autores como Roseana Murray, Mário Quintana e outros. O Wagner, quando aprendeu a ler, se apaixonou pela poesia e se esforçaram pra se aprimorar e poder ler poemas para os colegas e mostrar o encantamento e a satisfação que a poesia tinha pra ele.
O ato de ouvir é muito importante, parece que acende uma faísca, atiça o desejo de ler. Os livros mais procurados no circuito são os que a gente lê em sala ou a Denise lê na Hora do Conto na biblioteca. Eles avançam nesses, querem ler e sentir de novo aquela emoção. A literatura é um bem precioso, quando descoberto envolve a todos numa energia poderosa e transformadora.