Puxe a cadeira e
vamos bordar

Eloí Elisabet Bocheco

Assim como um bordado primoroso, a tarefa de formar leitores requer tempo e paciência de bordadeira. Ponto por ponto, fio por fio da meada até surgir um encanto duradouro sobre o tecido.
Tramar o surgimento do leitor, puxando e trançando os fios com muita artimanha amorosa e disposição pra conversar sobre o lido, aproveitando cada movimento inesperado pra botar mais fio, mais invenção.
Sandra, da 2ª série, não chegara a ler nem a metade de A Margarida Friorenta, primeiro livro da vida, e havia desistido. “Que tal lermos juntas e em voz alta? Olha só que jeito mais bonito de um livro começar! Parece que já começa meio mágico, não é não?” A leitura em voz alta, atualizando as vibrações poéticas do livro, soltou um fiozinho que tava impedindo o bordado de prosseguir. “Vou levar de novo pra ler em casa” - ela falou (e leu e releu esse livro e muitos outros).
Claro que se o livro não fosse bonito de verdade, e não acrescentasse tons e entretons ao bordado, era melhor deixá-lo de lado. Livro que não torna o bordado mais bonito não merece estar num acervo. Por que perder tempo com o que não ajuda a criar a existência?
Muitas vezes observei que as tias e avós gostavam de ficar juntas para bordar. Puxavam a cadeira pra varanda e ali enredavam arte e vida.
Na biblioteca é uma alegria sem par puxar a cadeira e ouvir os leitores falarem das histórias lidas e das vividas. “A leitura muda o viver da gente” – a Joelma (8ª) me falou e ainda disse mais nesse dia: “Sinto que quem não lê perde a inteligência que o livro dá” - ela que acabara de descobrir Charles Dickens e que há muito tempo já não achava graça nas Sabrinas e Júlias porque vinha aprimorando a cada dia o seu bordado. A Daina (4ª) puxou várias cadeiras, fez uma roda e foi em casa chamar a tia, a prima e o irmão pra lerem com ela um livro da Maria Heloísa Penteado.
A propósito de uma Antologia de Drumond, a Dioene (8ª) exclamou: “Esse livro parece que tem que adivinhar!” Hora boa essa pra puxar os fios invisíveis que dão perenidade ao bordado. É uma parte custosa e demorada a de puxar os fios invisíveis, ajudar a decifrar os pontos perplexos que fazem a diferença para a originalidade do bordado. Hora de arrematar a laçada e fazer uns rococós e uns altos-relevos bem pronunciados. No final, a Dione deu um “veredito” e tanto: “Tem livro que só lendo de novo, de novo e mais de novo!”
O Jeferson, ao ler Pele de asno, puxa um ponto de entremeio: “Se eu visse a Pele de Asno, eu ia dizer: Que gatinha!” E o Lorival (4ª) faz um arremate de leitor atento: ao levar pra casa um livro que era um colosso de bonito graficamente, mas cujo texto era frouxo, desabafou: “Que livro mais tolo! Os desenhos são bonitos, mas a história é tola; gosto de ler histórias que tem mais conteúdo e opiniões porque a gente aprende mais.”
Uma pesquisa sobre Hábitos de Leitura, realizada em onze capitais brasileiras, publicada na folha de São Paulo em 11/08/96 mostra que 85% dos entrevistados não leu nenhum livro para a escola e 82% não o fizeram nem por motivo de trabalho. Na década de 80, lecionei para turmas de 33 séries do 2º grau que jamais haviam lido um único livro em 11 anos de escolaridade. Queixavam-se da dificuldade que tinham em expressar-se, ao mesmo tempo que constatavam que estar afiadíssimos em regras de gramática normativa não contribuía para “puxar o pensamento” e dizer o que desejavam oralmente e por escrito.
Uma coisa fascinante é o poder que tem um bordado de encantar e envolver. Não demora muito e os que estão por perto se enredam nas linhas e ajudam a puxar outras e vem um desejo de que o bordado não pare nunca. “Agora (esse agora conta de antes e depois) a minha mãe vai fazer uma salinha só de livros na minha casa” - contou a Roseane da 2ª série.
E fez. E em muitas outras casas fizeram. Às vezes a “salinha” era só uma caixa de supermercado com alguns livros didáticos velhos que eles ganhavam de alguém, mas que simbolizava a continuidade da biblioteca que haviam descoberto.
“A minha mãe mandou dizer pra você que não gostou nada do final desse livro!” - o Adalberto me comunicou. Ele lia as histórias pra ela, que não sabia ler, e ela botava fio, botava desejo. Quantos livros ela não leria, se ler soubesse. Isso dava puxões no bordado, na noção do quanto a luta pelo direito à leitura tem que avançar.
Eles me contavam que a mãe, o pai, (algumas vezes, a vó) ficava esperando pra ver “que livro você trouxe pra casa hoje?” - tramados no bordado até o pescoço. “A minha mãe diz: pegue este, pegue aquele, traga de novo aquele”... isso a Karine (2ª) vinha me contar, sentada com a cadeira bem pertinho.
A grande maioria das crianças das escolas públicas não têm a oportunidade de descobrir a biblioteca como um espaço de alegria, sustento pro sonho, paixão pelo conhecimento, trânsito de idéias e tudo o mais que representa uma biblioteca com as portas escancaradas, com crianças vindo e indo, indo e vindo o tempo todo, com livro na mão, parando no meio do corredor pra olhar que livro o coleguinha pegou, mal resistindo à hora de chegar à sala pra ler texto e ilustração, e tanta coisa mais que merece registro do animador que precisa ter muitos olhos e mãos pra dar conta do risco deste bordado, que é “uma alegria para sempre”.
Das doze escolas em que trabalhei, em quase todas envolvi-me com os colegas na luta pra criar o espaço específico da biblioteca, tendo que sempre começar de novo a mesma luta: organizar o espaço (o que é considerado biblioteca em muitas escolas não passa de um depósito de livros didáticos velhos e outras quinquilharias), batalhar por acervos de qualidade, conquistar os leitores e criar uma tradição de leitura que perdure.
“- Aqui vendem livros?” - um menino perguntou ao entrar pela primeira vez no recinto em que organizávamos a biblioteca. Esse menino não tinha “descoberto” a biblioteca e estava na 3ª série do 1º grau!!! .
Nessa mesma escola, quando ficou tudo organizado e pudemos iniciar o circuito de empréstimos diários, a Rosilei da 2ª série, falou uma coisa que guardarei para sempre: “A gente pode levar os livros pra casa e então podemos pegar os livros nas nossas mãos!” Por certo, se as crianças botassem mais as mãos em livros, se pudessem “brincar de viver em livros” com fartura, muita coisa mudaria no miolo e nos arredores do mundo.
Mãos nos livros, livros “a mancheia” pra bordar uma memória literária importante que, conforme a experiência de reunir crianças e livros tem mostrado, pode fazer diferença para coisas como autonomia, gentileza com a vida, criação da identidade e outros riscos enredados nesse bordado.