Apontamentos sobre

Alice no País das Maravilhas

Antonio Garcia Barreto
Escritor e Especialista em Literatura
Infantil e Juvenil em Portugal


Esta belíssima história para crianças, conto de fadas sem fadas, (fairy tale lhe chamou o autor), não teve logo aquele transbordante sucesso de outros livros, que são hoje patrimônio da História da Literatura Universal e fizeram o encanto de crianças e jovens. Lembramo-nos, por exemplo, de A Ilha do Tesouro, de R. L. Stevenson, ou Robson Crusoe de Daniel Defoe, que foram tremendos êxitos editoriais a seguir à sua publicação.
Mas Alice e o seu autor jogavam num tabuleiro diferente daquilo que era aceitável na época como escrita para um público infantil (e não tanto juvenil, como se podem considerar os livros atrás citados). Realmente não ensinava moralidade nem ensinava nada se concreto. Ou seja: uma blasfêmia literária atendendo ao público-alvo a que se destinava e aos padrões educacionais da época. Era pura imaginação à solta, refinado nonsense, reino da fantasia.
Os instalados cérebros bem pensantes, que atravessam o ambiente intelectual em todas as épocas, detestam que lhes desequilibrem a sensaboria das suas opiniões e certezas acadêmicas. Daí que Alice no País das Maravilhas, embora tivesse registrado boas vendas logo a seguir à sua publicação, não apresentasse um índice superlativo nesse domínio, que só mais tarde registrou, como sabemos. Não foi mesmo citada no popular catálogo de Edward Salmon, saído em 1888, e intitulado Juvenilde Literature as It is.
É verdade que a escrita para crianças tem de ter em conta certos critérios, mas ela não se destina, prioritariamente, como bem entendeu Lewis Carrol, a formar homenzinhos e mulherzinhas bem comportados, mas a servir e a desenvolver, prioritariamente, o sentido lúdico e a alimentar a imaginação da criança. O resto vem por acréscimo. Até porque Lewis Carrol, ou talvez antes, o matemático Charles L. Dodgson, tinha testado o seu produto com o leitor-tipo a quem se dirigia a obra, que era o caso de Alice Liddell e suas irmãs e irmãos, obtendo a sua aprovação, sobretudo dela, Alice, que lhe pediu para escrever a história depois de a ouvir contar.
O que continua hoje a fazer o sucesso de Alice no País das Maravilhas é, em meu entender, precisamente ser uma história que apela àquilo que na criança é inato e perene: a apetência pela fantasia. A capacidade de ginasticar a sua própria fantasia, através da escrita maravilhosa do(s) autor(es). Da mesma forma que nas obras que referi atrás de Stevenson e Defoe, muito bem aceitas por um público jovem, existe o espírito de aventura e o apelo a valores que o imaginário juvenil avidamente procura. Alice no País das Maravilhas é uma daquelas obras que o tempo não consegue corroer, como por exemplo, O Pequeno Principe, de Saint-Exupéry – e algumas outras, felizmente – que passam pelas épocas e pelas modas literárias e político-pedagógicas, indiferentes ao tricot das idéias.