Memórias de Leitura...


U
m dia me dei conta de que sabia ler. As palavras foram se somando, as frases construíram-se. Percebi que podia pensar juntando letras. Estava lá pelos nove anos, interno no seminário. Com palavras, encurtava a distância e as saudades de casa. Na primeira carta à minha mãe - coisa pouca, pouco mais de meia página - não deixei de lhe contar que estava lendo um livro. Ela teve certeza de que eu estava infeliz. Sentiu remorso. Era cedo demais para encerrar a minha infância de pés descalços e nariz escorrendo, solta ao vento. Lembro-me da obra: A vida de Dom Bosco, o santo dos jovens. De mais não me lembro.
Algum tempo depois, não me lembro quando, aprendi a viajar na leitura. Naveguei em grandes barcos a vapor, na companhia de vaqueiros bêbados e inveterados jogadores de pôquer. Mal sabia eu o que eram vaqueiros ou mesmo para que se jogava pôquer. Mas o Tom Sawyer sabia e isso bastava.
Lembro-me, ainda, do aroma das tortas de maçã da Tia Polly, prêmio incontestável para as raras vezes em que Tom e Huckleberry Finn conseguiam desenrolar-se das manobras para fugir à rotina da casa dos Sawyers. Não entendia porque o americano comia tanta maçã! Na minha casa, comer maçã tinha a ver com tomar óleo de rícino com gasosa - purgante mensal, dado goela abaixo para limpar o sangue. Eram frutas raras e importadas da Argentina, chochas e "manzanas".
Acompanhei Tom em muitas de suas aventuras. Corri com ele pelas frescas manhãs dos verões à beira do grande rio americano. "Tudo era fresco, brilhante e cheio de vida. Havia uma cantiga em cada coração e, se o coração tinha poucos anos, essa cantiga vinha até os lábios. Todos se mostravam contentes e andavam com desembaraço. As alfarrobeiras em flor e o perfume dessas flores enchia o ar..." Que diabos seriam essas alfarrobeiras tão perfumadas? Eu, ali, debruçado sobre a carteira na sala de estudo livre, ante-sala da biblioteca, vivia a santa ignorância de não entender de alfarrobeiras. Mas lembrava as guaviroveiras atrás de nossa casa e suas frutinhas doces e abundantes. Podia sentir as pedradas nos galhos dados pelo Sid, Huck Finn, Jim, Mary, Joe Harper, Zezo, Adílson, Riciotti e tantos outros.
Já se haviam passado alguns anos. As cartas para casa passaram a ser mais floreadas. Algumas, aventurosas. Como a que relatou o primeiro passeio grande que fizemos aos morros do Corvo Branco. Comemos lagarto no espeto. Era bom. Tinha gosto de peixe frito. Minha mãe sabia que não era preciso se preocupar. Além das aventuras de Tom Sawyer e Huckleberry Finn, do fantástico Mark Twain, as obras de Karl May, com Winnitu e todos os seus amigos peles vermelhas, os marujos de Simbad, as guerras e as pescarias de Hermingway e tantos outros personagens empacotados nos livros tinham me emprestado uma certa mania de viajar e alguma dose de exagero. Ler deixaria de ser castigo. Já não estava só. Tinha amigos. Era feliz.

Adgar Z. Bitencourt
Diretor do Centro de Ciências
Biológicas e da Saúde - UNOESC



Meu primeiro livro


M
inha primeira viagem pelo mundo dos livros deu-se quando eu estava sendo alfabetizado, naquele colégio onde Irmã Marinella ensinava a rezar. A Irmã Teresinha, bonitona, olhava por sobre os óculos, tentando assenhorar-se de severa, reprimindo-nos pelas peraltices. Ainda, diziam, ela iria dirigir a caçamba que levaria a terra da escavação do Mater Dolorum.
As internas e os seminaristas falavam tudo certinho: não era "pra" era para; nem "paie", nem "manhe", mas papai e mamãe. Eu não conseguia entender porque muitos jovens morriam, se era por causa de "doença feia" ou por descuido, mas foi-se a Maria Lúcia, o Hélio, o irmão do Ivanildo, depois a Marlene...
A professora levou-nos à biblioteca, onde um montão de livros bordôs com caracteres dourados enfeitavam as estantes. Não se podia mexer neles. Pareciam coisa sagrada. Havia o livro negro para os relapsos, o de ouro para os que eram disciplinados e ajudavam na campanha em favor dos lázaros. Ela retirou uma pilha deles, alguns finos, outros com mais de 100 páginas e coube-me Memórias de um burro. Ah!, que felicidade ter um livro só pra eu ler!
Foi aí que consegui articular as primeiras letras "q" e "g", que ainda não dominava em meu segundo ano de escola. Emocionei-me com os infortúnios do burrinho Cadichon (acho que era esse o seu nome). Ele pensava, tinha sentimentos, falava a linguagem dos bichos mas, naquele tempo, não havia ministro de governo que o pudesse considerar humano. A história dele terminou bem ao estilo dos dramalhões mexicanos e eu fiquei contente em poder dizer ao mundo que lera meu primeiro livro.
Depois naveguei por outros mares, de Júlio Verne e Drummond, passando pelos subúrbios cariocas de Assis, pela Paquetá de Macedo, pelos sertões do xará Euclides, pela Bahia de Jorge Amado, até ancorar nos portos do mestre Armando Nogueira, o poeta do futebol.
Anos depois, casado, ainda sem filhos, voltei ao meu antigo colégio. Fui à biblioteca e lá estavam todos aqueles livros, encapados com papel pardo, sem inscrições em seu dorso. Levei a mão a um deles, com cerca de dois centímetros de espessura e puxei-o. Era o Memórias de um burro, que me levou de volta aos tempos da saudosa infância.

Euclides Celito Riquetti
Professor de Língua Portuguesa
em Ouro/SC