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Entrevista
João de Deus Souto Filho
Balainho — Você nasceu e viveu em Carolina (MA) até os 8 anos de idade e mudou-se depois para Goiás. Nesses dois lugares, passou a infância e a adolescência. Como foi o contato com a literatura, os livros, o folclore, as histórias orais, a poesia, nessa fase de sua vida? João de Deus — Foram dois períodos bem distintos na minha vida. Distintos e marcantes. Primeiro, pela ambiência: Carolina era uma cidade de interior, situada às margens do rio Tocantins, apresentando aquela geografia típica de uma cidade pequena; Goiânia, por sua vez, era uma quase metrópole naquela época, uma capital que estava em franca expansão, especialmente pelo fato de situar-se relativamente próxima de Brasília, recém inaugurada. Na verdade, eu poderia dizer que a minha infância foi toda passada em Carolina. As minhas lembranças desse tempo são todas gostosas: tomar banho no rio Tocantins, as pescarias, os quintais, os festejos, as peladas na rua da areia, as férias na casa de meus avós maternos. E foi nesse período que iniciou o meu contato com a literatura. Um contato que se deu através da oralidade. Eu me recordo das histórias contadas por uma prima, que havia morado no Rio de Janeiro e que nos fascinava com as narrativas de Branca de Neve, a Gata Borralheira, Rapunzel, o Gato de Botas. Eu devia ter seis ou sete anos quando ouvi essas histórias pela primeira vez e guardo-as na lembrança como momentos verdadeiramente mágicos. Paralelo a isto, meu avô materno era um excelente contador de causos de assombramento. Ele nos cativava com uma narrativa rica em detalhes, com personagens fantásticos, que nos deixava com a sensibilidade à flor da pele. Já em Goiânia, as marcas deixadas foram outras. Primeiramente, em função do rompimento do cordão umbilical que fazia a ligação entre o meu eu e as minhas referências de infância. Goiânia me pareceu, num primeiro momento, um ambiente altamente agressivo, com personagens estranhos. Desta época, me recordo que a escola não me agradava muito. Especialmente o Português. Aliás, eu nunca fui um bom aluno de português por dois motivos: primeiro, eu detestava estudar gramática; e, segundo, eu tinha verdadeiro pavor dos famigerados ditados. Por esse motivo, eu não fui um grande leitor durante o ciclo básico. Porém, existia uma coisa que me despertava muita atenção. Eram os cantadores (em Goiás, as duplas sertanejas e, na Paraíba, onde passava férias na casa de meus avós paternos, os repentistas e emboladores). Estão aí, com certeza, as raízes do meu interesse pela poesia. A minha iniciação na literatura foi através da oralidade. Balainho — Primeiramente, a sua formação se deu em Geologia, área em que fez pós-graduação. Recentemente você fez Letras pela UFRN. Como foi que se deu a passagem da geologia para as letras. Você escolheu a geologia e a literatura o "escolheu"? João de Deus — Eu diria que sim. Optei primeiramente por geologia de forma convicta. Foi uma escolha da qual não me arrependo nem um pouco. Eu gosto muito da minha profissão. Ainda faço geologia com muito prazer. Com relação à literatura, eu acho que fui cativado por ela em doses homeopáticas. Foi uma descoberta que se deu em ritmo muito lento e que se iniciou quando passei para o segundo grau. Posso afirmar que eu fui apresentado para a literatura formal por Othon Garcia, através do livro Comunicação em prosa moderna. Foi estudando naquele livro que eu percebi que a literatura era algo prazeroso, que o português, a nossa língua, não era nenhum bicho papão e que poderia ser ensinado tomando como referência o texto e não o contrário, como se faz normalmente, da gramática (normativa) para o texto. Optei por fazer Letras quando já havia iniciado meu processo de "escritura". Foi a busca de um aperfeiçoamento. Considero que foi uma escolha em condições muito privilegiadas, ou seja, sem estar relacionada com a condição de sobrevivência. Foi uma experiência muito interessante e enriquecedora. Durante o curso de Letras, deu para perceber que a Literatura Infanto-Juvenil é vista como um tema, ou uma disciplina de 2ª categoria. Infelizmente, o meio acadêmico ainda trata a Literatura Infanto-Juvenil como um produto marginal, quase como um apêndice. Uma tristeza! Balainho — Quando começou a escrever poesia infantil e como aconteceu esse encontro? João de Deus — Eu comecei a escrever quando a minha primeira filha nasceu, por volta de 1982/83. Antes, eu já tinha produzido alguns rabiscos em forma de poesia. Nada de forma sistematizada, apenas exercícios de iniciante. Nessa época, eu comecei a ter contato mais direto com o material pro para o público jovem. Nós tínhamos em casa uma pequena biblioteca de livros infantis. E eu percebi que a maior parte desse material tinha um caráter puramente educativo, algo meio quadrado, que buscava nitidamente fazer a cabeça da garotada. Uma literatura de baixa qualidade, sem poesia, sem encantamento. O que salvava, muitas vezes, era a parte de ilustração. Daí eu comecei a fazer alguns testes com a minha própria filha e a observar, com maior detalhe, as reações dela diante do texto, sempre explorando a oralidade, porém tentando reproduzir fielmente o texto apresentado. Deu para perceber algumas coisas interessantes, como por exemplo, na maioria das vezes não era a mensagem, ou o significado, que despertava o seu interesse, mas sim, o ritmo, a musicalidade, o vocabulário inusitado, o volume das palavras. Foi dentro desse contexto que se deu a minha iniciação como escritor de poesia infantil. Balainho — Quem são os autores de literatura "infanto-juvenil" que mais te encantam? Poesia e prosa e também outros autores da "literatura geral"? João de Deus — Eu tenho algumas preferências em termos de Literatura Infantil e Juvenil. Primeiramente, falemos dos autores brasileiros. Na poesia, Cecília Meireles e Mário Quintana são os que mais me encantam; tenho uma relação de afinidade muito forte com Ou isto, ou aquilo, de Cecília - sempre que eu sinto necessidade de poesia vou beber dessa fonte. Mário Quintana, porque faz poesia com alegria e pelo seu domínio da palavra. Também gosto muito de José Paulo Paes, um moleque autor, no bom sentido. Vinicius de Morais que nos deixou uma obra-prima, A arca de Noé, não pode ser esquecido. Na prosa, não poderia deixar de fazer referência a Monteiro Lobato, âncora da nossa literatura para jovens. Mas tem muita gente boa da geração mais recente: João CarIos Marinho, autor dos deliciosos O caneco de prata e O gênio do crime. Tem tantos mais: Maria Clara Machado, Sylvia Orthof, Ruth Rocha, Lygia Bojunga Nunes, Clarice Lispector (A mulher que matou os peixes), Fernanda Lopes de Almeida (A fada que tinha idéias). Para finalizar, penso que dois autores, fundamentais para a língua portuguesa, deveriam ser apresentados mais cedo para os leitores jovens: Femando Pessoa e Guimarães Rosa. Em termos de autores estrangeiros, destaco Lewis Carrol e sua extraordinária criação, Alice no país das maravilhas. Balainho — Quem escreve poesias para crianças, em geral, encontra sérias dificuldades para publicar seus textos. Como tem sido esse enfrentamento pra você, aí em Natal? Você publicou um livro por conta própria. Como foi essa experiência? João de Deus — Esse é um problema que incomoda muito. Aqui, no Rio Grande do Norte, as dificuldades são enormes. Não existe nenhum incentivo e, quando aparece alguma coisa, ocorre algo extremamente revoltante, as cartas já estão marcadas. Esse é o motivo maior pelo qual a quase totalidade das minhas obras ainda permanecem inéditas. Sobre o livro que eu publiquei por conta própria, posso dizer que foi uma aventura, de certa forma, frustrada. A minha idéia era criar uma editora para produzir livros de pano. Com esse objetivo, eu preparei O quintal do seu Nicolau, um livro voltado para crianças de 2 a 5 anos, que buscava resgatar o valor dos quintais para os pequeninos. Resumo da ópera: não consegui comercializar o produto. Resolvi, então, distribuí-lo entre os filhos de amigos e conhecidos. Se, hoje em dia, é difícil ver um pai comprar livros de papel, mais baratos, imagina se vão se interessar por livros de pano, que são um pouco mais caros? Balainho — E a sua incursão no teatro infantil, como foi? João de Deus — Deu-se de forma espontânea. A minha primeira peça, O aprendiz de jardineiro, eu comecei a escrever durante uma reunião de pais e mestres na escola de minha filha. Foi uma história que já nasceu pronta na minha cabeça. Esta peça foi representada por um grupo de teatro amador daqui de Natal, com ótima repercussão entre as crianças. Depois, escrevi O passeio da Cinderela, que faz alusão aos personagens clássicos da literatura infantil. E tem uma terceira peça que está quase pronta na minha cabeça e, em breve, estará no papel. Seu título é A fantasia psicodélica do rei pirata. É uma história que fala das questões de liberdade, no sentido mais amplo, dentro do universo infantil. Balainho — Na sua opinião, o que podemos fazer para enfrentar as políticas de NÃO-LEITURA com suas artimanhas e sutilezas? João de Deus — Essa é uma questão complicada. Acho que só existe uma fora: através da persistência. Atuando em duas frentes: primeiramente, desenvolvendo ações, como educadores mesmo, junto aos leitores em potencial, o público jovem, e aos profissionais que atuam na área da educação (professores, pedagogos, diretores de colégios). E, em paralelo, atuando como animal político, visando as esferas mais altas do círculo do poder (secretarias de educação, órgãos municipais e estaduais, ministérios), incluo neste rol a grande mídia, que muito pouco faz pela leitura. Uma outra idéia seria criar uma associação, ou mesmo uma cooperativa, com o objetivo de levantar recursos para a edição de livros infantis e juvenis, além de criar condições para uma distribuição mais ampla do material produzido. O grande desafio, no meu entender, é poder disponibilizar as obras para o público jovem a custos baixos. O livro precisa ser pensado como um produto barato, especialmente quando se busca torná-lo acessível para as crianças de origem humilde, para a população pobre deste país. Balainho — Um livro de LIJ inesquecível que você indica? João de Deus — Permita-me fazer referência a duas obras. Na área da poesia, eu sempre indicarei Ou isto, ou aquilo, de Cecília Meireles. E por que isso? Simplesmente pelo fato de o leitor poder encontrar nesta obra as várias facetas da poesia: a rima bem trabalhada, sonoridade das palavras, explorada de forma sutil e deliciosa, a estruturação e desestruturação dos vocábulos, amplificando as suas potencialidades através da poesia bem construída, a criação de imagens inusitadas, mesmo quando trata de situações aparentemente banais. Estes são alguns poucos elementos que justificariam a indicação. No campo da prosa, uma indicação interessante seria A fada que tinha idéias, de Fernanda Lopes de Almeida, por ser um texto que estimula a criatividade, por ser uma obra que abre novas perspectivas ao leitor, em síntese, por ser um texto provocativo. |