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Poesia – sem dia marcado
A poesia é, dos gêneros literários, o mais maltratado pela escola. Em geral, só entra pela “porta de serviço”: poesia para “ilustração” do calendário cívico e não para o deleite dos leitores.
“Tem aí uma poesia para o dia dos pais?” A pergunta reflete o uso que se faz da poesia e o espaço que a ela é destinado no ambiente escolar: poesia a serviço de propósitos utilitários, didatizantes.
Poesia é arte e como arte visa o belo, o lúdico, o prazer do leitor e, portanto, não deve vir atrelada ao ensinamento didático, confundida com matéria curricular ou com a pseudopoesia, o arremedo poético, textos comprometidos com a lição moral ou didática, os quais se utilizam de recursos poéticos para ensinar ou doutrinar. A convivência com a poesia com qualidade estética é uma experiência valiosa para a criança. Representa a possibilidade de habitar as palavras como brinquedo, como sonho. A relação da criança com a linguagem é ancorada no sonho, na invenção, na emoção, no pensamento mágico e intuitivo. Por isso, oferecer-lhe a poesia com lirismo autêntico é uma forma de respeitar e enriquecer essa relação primordialmente lúdica e poética com a língua. Adultos atentos freqüentemente se surpreendem com as explicações metafóricas com que as crianças nomeiam as coisas do mundo.
A criança é poeta por natureza e se expressa de forma inventiva e singular, pelo menos enquanto a cultura predadora não lhe rouba a capacidade de maravilhar-se e inaugurar o mundo de maneira própria e original. Em A educação do ser poético, o poeta Carlos Drumond de Andrade faz uma instigante indagação: “Por que motivo as crianças, de modo geral, são poetas e, com o tempo, deixam de sê-lo?”
Salta aos olhos o quanto é aprazível às crianças a convivência com a linguagem poética com seus ritmos, melodias e cadências, jogos de palavras, ludismo sonoro e outros feitiços da palavra poética.
Ramon, (7 anos), ao ouvir poesias de Cecília Meireles, exclamou surpreso: “São que nem música. Parece música, né?” Edmilson, da 1ª série, ao ouvir poesia pela primeira vez, concluiu: “Essas daí são daquelas que combinam.” – referindo-se às rimas das palavras. A poesia é um referencial imprescindível na criação da intimidade com a leitura. Quando descoberta pelas crianças e jovens, a poesia é amada e visitada com prazer e curiosidade.
Testemunhamos no circuito do livro literário na biblioteca a procura insistente pelos livros de poesia a ponto de alguns leitores brigarem e quase saírem aos tapas na disputa por certos livros muito apreciados e com exemplares escassos. Esperavam pela volta do texto poético como coisa muito desejada: “Aquele livro de poesia voltou?” Veio “O” livro de poesias?” Quando é que vem mais livro de poesia? Houve inclusive o caso do menino da 4a série que levou o livro e não queria mais devolver de jeito nenhum. Não queria mais se separar da experiência poética que o envolvera por inteiro. Desejava prolongar a sensação de beleza, pois a poesia, a literatura é sonho que perdura e surge renovado a cada leitura. Pudemos constatar, nesse circuito, o quanto os meninos e meninas são tomados de bem-querer à poesia quando a ela têm acesso. Ninguém pode amar o que não conhece. Essa é uma obviedade à qual a sociedade resiste o quanto pode.
“Quero trabalhar com poesia mas não sei como”. Já ouvimos muito essa frase, vinda de educadores, junto com pedidos de ajuda e sugestões.
Exceções à parte, os cursos que formam educadores não dão a devida relevância ao estudo da Literatura Infantil e Juvenil. Como o educador vai trabalhar com poesia se ele mesmo não a descobriu? Não foi enredado na teia mágica dos universos poéticos? Não leu os autores, não analisou as obras, não refinou os critérios de seleção dos textos?
Costumamos sugerir que se comece o “resgate” da poesia pela obra magistral de poesia para a infância: Ou isto ou aquilo de Cecília Meireles, livro que transborda de beleza e graça, embebido do lirismo mais autêntico e genuíno.
É preciso conhecer a produção poética para os jovens leitores para poder envolver a criança na emoção da palavra artística, mediando essa relação tão importante com lucidez e conhecimento.
Já ouvimos professores perguntarem: “O que posso fazer com a poesia em sala de aula?” Um educador sensibilizado para o valor da poesia e com conhecimento de bons textos só precisa partilhá-los com os pequenos leitores. Uma leitura apaixonada do texto poético, atualizando a emoção, o ritmo, a melodia, a beleza já é, em si, uma rica experiência, que, por si só, já captura o leitor, deleitando-o. As crianças ouvem e vêem tantas coisas medíocres, vulgares, grosseiras (certas músicas, danças, programas de TV). Por que não lhes refinar o ouvido com a beleza e magia da arte poética? A poesia artística é nutrição de primeira para fertilizar o imaginário e criar uma memória cultural e afetiva com padrões de interpretação mais elaborados, na contramão da superficialidade, da massificação que imbeciliza e subestima a inteligência e sensibilidade de crianças e adolescentes.
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