Do espanto ao reencantamento:
a recuperação do lúdico


Que memória de leitura têm os educadores? Que convívio tiveram na infância, no decorrer da vida ou no curso de formação com a literatura? Que envolvimento tiveram com a palavra artística, com os universos sutis, belos e lúdicos das obras literárias?
O texto de MÁRCIA FARINELLO, aluna da Pós-graduação em Lúdico da UNOESC/ Joaçaba, dirigido ao professor Peter O'Sagae/SP, conduz à reflexão sobre uma questão fundamental da formação de leitores: a relação do educador com a leitura, em especial, com a literatura – texto privilegiado para a sensibilização do desejo de ler, para o refinamento das emoções num mundo que preza tanto a mediocridade e promove o endurecimento das relações.



Certa noite, a infalível pedagoga sai para mais uma missão. Ela deveria dirigir-se até a Universidade e, do alto de suas tamancas, desmontar um tal professorzinho que vivia contando histórias e dizia que, através dos livros, seus alunos veriam um mundo melhor.
Mas como reconhecê-lo, se todos os professores são iguais? Estaria ele com pesados óculos fundo de garrafa? Seria careca, sisudo, azedo, enjoado?
A pedagoga, mestra na arte de questionar e duvidar do saber dos outros professores, dirigiu-se até a sala onde estava sentado o grupo.
Sorrateiramente sentou-se em um canto e procurou armar-se com seu escudo protetor que lhe protegeria de possíveis idéias ou sugestões que lhe fizessem admirar ou simplesmente confiar naquele que no momento – só por alguns momentos – detinha o saber. Ela sabia exatamente como infernizar, questionar, desmontar com perguntas que ele nunca saberia de onde veio. Esta era sua missão e, como sempre, ela seria perfeita.
Porém, ao erguer os olhos, a pedagoga disfarçada de acadêmica, encontrou o famoso professor paulista contando uma história intitulada Ida e volta, de Juarez Machado. Era incrível pois esse livro não tinha texto. Como poderia ele contar uma história sem texto? Que bobagem seria aquela?
Ela bem que tentou contrariar as idéias dele, torcer o nariz para o que ele dizia, mostrar que ele não estava agradando. O infalível plano continuava sendo praticado e a cada livro, poesia, ou conversa era preciso que ela entendesse tudo: ouvisse, visse, perguntasse para fazer então as caras e bocas características de quem estava odiando tudo, achando um saco o assunto.
Pois bem, no final do primeiro encontro ela foi embora para sua casa-castelo-caverna e odiou mesmo o “dono do saber” que queria saber mais sobre ela e sua infância. Então a pedagoga sabichona tirou sua máscara e revelou-se para ele. Não mentiu, nem omitiu as dores da infância. Entregou-lhe uma carta que, na verdade, era endereçada a ela, contava para ele a sua vida e relembrava sua dor, mas liberava pra longe as energias negativas, guardadas há tempo. Estranhou, pois nunca um professor quis saber sobre sua infância. Por que ele quis aquilo?
Talvez por descuido, no segundo encontro o contador de histórias penetrou em seu disfarce. Jogou com ela, participou da brincadeira. Encheu-a de perguntas.
Ela sentiu que ele era diferente. Era um bom observador, não se sentia superior...
Não, ele não podia ser amigo dela, nem ela devia dar-lhe uma atenção maior.
“Torça o nariz, rápido!” – dizia para si mesma ao ver a mala de livros e CD’s que noite e dia o acompanhavam.
Estranhou, mas a sensação que teve foi de admiração e entusiasmo. Ouviu tudo e, o pior, gostou! O que ele havia feito? Ele lhe ensinou a imaginar poesias, divertir-se com elas, sonhar e imaginar as mensagens explícitas e aquelas que se escondiam nas entrelinhas.
Horrorizada com suas emoções a pedagoga pensou: “Meu Deus, virei pedaboba! Penso com o coração! Coloco um pedacinho de minha vida na história, na poesia... Socorro!
Teve medo do lobo e da fera. Sofreu com o patinho feio (viu-se ontem-hoje) e uma tristeza-alegria profunda foi tomando conta da pedagoga enrustida. Havia sofrido o feitiço das grandes fadas misturado com o feitiço das horrendas bruxas. Começava a gostar daquilo que estava aprendendo. Nunca, nunca mais esse encontro-feitiço seria quebrado...
Não adiantaria beijo de príncipe, paixão de fera ou sapato de cristal. A pedagoga, que se achava esperta demais, descobriu que era cega – cega para as emoções e, por isso, sentia que a sua missão era destruir o professor sabichão, pois, com os olhos da sensibilidade, ele via um mundo que ela jamais conseguira ver. Era pela possibilidade de não ver esse mundo, dessa outra forma, que ela teve medo e, para defender-se dele, atacou.
Nunca pôde imaginar, porém, que o sabichão era legal e gostava de dividir o que sabia. Nem passou pela sua cabeça que o sabichão-sabe-tudo era alguém normal que fica feliz vendo os outros aprenderem.
Então ela fechou os olhos e, com os olhos da sensibilidade, ouviu em sua casa-castelo as fitas gravadas dos CD’s mágicos. Mentalmente abriu os livros – porque agora ela tinha o poder de recordar tudo em grandes e pequenos detalhes – e ficou feliz.
Agora a pedagoga continua infalível, mas na arte de contar e imaginar histórias. Ligá-las com outras. Perceber e compreender o que não está escrito, mas subentendido.
Em certos dias, quando sente-se cansada e abre um livro sem inspiração, como num passe de mágicas, ela vê o professor-sabichão lhe apontando novas direções. E então uma ponta de saudade lhe invade o coração e a pedagoga lembra de muitas canções e uma dela toma corpo:
“Amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito”.
Para você, que é super especial, e com quem aprendi muito!
Com carinho,
Márcia

Enviada ao professor Peter O'Sagae/SP em outubro de 1999.