Memórias de Leitura

Em suas memórias de leitura, a prof.ª e alfabetizadora Marileide do Nascimento Oliveira e Silva aponta para a grande judiação que é negar às crianças o direito ao livro literário primoroso e belo.
E mostra que, amor aos livros, a criança tem de sobra!
Na minha escola, não havia biblioteca. Na 1ª série, a professora nunca contou uma história. Nem os clássicos da tradição oral.
No segundo semestre da 4ª série, ganhos livros (didáticos) do Estado; um de Estudos Sociais e um de português chamado Vivendo e aprendendo. Esse livro cheguei a ler dez vezes de tanto que eu gostava e não tinha tido a oportunidade.
Havia, na minha cidade, uma escola particular chamada Dentinho de Leite. Nessa escola, estudavam os filhos dos fazendeiros e eu ia levar os filhos de uma família para a escola, todo dia. Fazia isso com a intenção de entrar na biblioteca e ler os livros. Só assim eu tinha acesso. Li todos os clássicos: Chapeuzinho Vermelho, Pele de Asno... Cada dia, eu dizia: amanhã vai ser este, aquele, que vou ler. Já marcava na cabeça o que ia ler no dia seguinte.
De tanto eu viver na biblioteca, acabei enchendo a paciência da responsável pela biblioteca. Quando eu chegava, ela já dizia: chegou a devoradora de livro. Então para cativá-la e ela não brigar comigo, inventei de cuidar dos livros, tirar o pó, arrumar, deixar em ordem. Só pra ela me deixar ficar lendo na biblioteca.
Eu lia como se comesse, tinha fome. Comecei a passar para os colegas de minha classe, na escola pública onde eu estudava, as histórias que lia na biblioteca da outra escola. Eu juntava todos e, na hora do recreio, liderava-os e eles ficavam perto de mim pra ouvir as histórias. Eles ficavam apaixonados pelas histórias. Quando estava para bater o recreio, eles já vinham para o meu lado.
Primeiro, eu reunia no pátio só a minha turma. Depois meus coleguinhas foram contando para as outras turmas e aí outras turmas queriam ouvir também. A escola toda ficava comigo durante o recreio.
As crianças não acreditavam que pudesse existir aquilo que eu contava, de tão lindas que achavam as histórias. Acabei influenciando a criação de uma biblioteca na escola. Essa biblioteca começou com 4 livros de histórias. Havia fila pra poder ter acesso a esses livros.
Certas crianças pegavam ficha e esperavam 22 dias pra chegar à biblioteca. A professora fazia os grupinhos e um aluno lia os livros para os outros. A ansiedade da gente era tão grande pra ler o livro que, além do representante ler, a gente tinha que pegar na mão e olhar e ler ligeiro porque já tinha outra turma esperando a vez.
Nós, nordestinos, temos muita fome por livro porque temos muita dificuldade de acesso a eles. Nós sofremos duas fomes: a da comida e a dos livros.
Na escola, abandonávamos a fila de merenda pra pegar a fila da biblioteca porque havia poucos livros. Depois, a biblioteca aumentou o número, mas não o suficiente para atender a todos. Um aluno estava lendo e já tinha dez esperando e dizendo: termina logo! Termina logo!
Na cidade em que eu morava, não havia ginásio e então tive que ir para outra cidade. Ia com carroça de burros e levava duas horas para chegar. Essa cidade era Campina Grande, terra de José Américo de Almeida e Augusto dos Anjos.
Quando cheguei a Campina Grande, foi uma festa pra mim. O nome de minha escola era Liceu Paraibano. Era uma escola rica em comparação com a outra onde estudei da 1ª a 4ª série. Quem chegava nessa escola já ficava satisfeito, era um sonho. O primeiro lugar em que entrei foi na bilbioteca. Quando senti que podia ler tudo o que havia li, me senti rica.
Campina Grande era cheia de livros, cheia de bibliotecas e, na escola, também havia uma biblioteca muito grande. Tínhamos 3 aulas de Português, na sexta-feira, e uma aula dessas era somente para leitura.
Pensei que, com tanta abundância de livros, eu iria amenizar minha fome de livros, mas aí é que aumentou. Acho que não ficou um livro naquela biblioteca que eu não li. Lembro que O Alienista, de Machado de Assis, foi a minha passagem do conto clássico para o livro mais extenso. Apaixonei-me pela obra O Cortiço, de Aluísio Azevedo.
Li José de Alencar, Augusto dos Anjos, José Américo de Almeida, Graciliano Ramos, Érico Veríssimo, Clarice Lispector. Quando a professora pedia pra ler um livro, eu já tinha lido três ou quatro vezes.
A professora de Português era uma pessoa apaixonada por leitura. Ela explorava muito bem a leitura. A gende ficava sabendo o conteúdo do livro e a história do autor. Cada semestre, líamos 8 livros em média. Essa professora centrava o ensino da língua na prática da leitura e dizia que o essencial era puxar a leitura.
Se eu não tivesse lido tanto, não sei se estaria morando onde estou hoje. Lendo, a gente perde o medo das coisas, enfrenta o mundo com mais capacidade. Saí da Paraíba e vim para Florianópolis, numa outra cultura, e não senti medo. Eu pensava, antes de vir embora pra cá, que o que eu tenho, o que aprendi, posso passar para outros, pois a leitura faz parte da vida. O meu incentivo maior é puxar a leitura e isso, em qualquer parte se consegue.
Fiz o curso de Letras e aí pude me aprofundar mais. A mesma professora do ginásio ensinava na faculdade e lá puxava ainda mais a leitura. Fazíamos também dramatizações de obras de autores brasileiros, portugueses e das outras literaturas. Um escritor que me impressionou muito foi William Shakespeare.
Acho que meu curso me deu respaldo para lecionar, mas o aprendizado concreto de ensinar língua adquiri lecionando de 5ª a 8ª série. Meu sonho é fazer um mestrado em Literatura e vou conseguir, se Deus quiser.
Acredito que só tomamos o sentido do livro, lendo-o mais de uma vez. Falo muito isso para os meus alunos. Os livros que leio para as minhas crianças da 1ª série, leio duas vezes. A cada leitura, descobrimos uma coisa diferente. A cada leitura, o livro tem um sabor diferente.
Preparo os meus alunos para a leitura como preparo uma receita gostosa de um bolo. Quando os vejo lendo aquele livro é como estar comendo o primeiro pedaço do bolo. Sinto enorme prazer em vê-los lendo.
Às vezes, queria estar no lugar dos meus alunos da 1ª série, tendo essa oportunidade de ler e ouvir os livros. Quando chega o dia da troca de livros, eles dizem: Ah! Professora, só deu tempo de ler uma vez. Quero ler mais vezes.
Nas 5ª séries, quando chega o dia de trocar o livro, eles ficam loucos. Querem trocar na primeira aula, mesmo que eu tenha com eles a quinta aula também. Já saem da sala com a escolha feita. A propaganda ocorre entre eles mesmos.
Para os meus filhos também conto muitas histórias. Não quero que eles sejam privados dos livros como eu fui.