A Teiniaguá: mito e literatura
Tânia Piacentini


A leitura de Teiniaguá, a princesa moura encantada1, do escritor gaúcho Caio Riter,
remete o leitor a uma das lendas mais instigantes do universo cultural do sul do Brasil, que teria sido registrada pela primeira vez como forma artística em 1913, por João Simões Lopes Neto, em Lendas do Sul, com o nome de A Salamanca do Jarau. Caio revisita o conto mítico, e revigora-o, propondo uma nova versão que, segundo suas palavras introdutórias, destaca mais as figuras da Teiniaguá e do Anhangá-pitã, o Diabo Vermelho, “seres sobrenaturais que estão no centro do encantamento que transformará a princesa na lagartixa encantada e na guardiã da gruta mágica, local que guarda tesouros e muitos perigos”. A versão de Simões Lopes Neto, a mais difundida, “dá maior ênfase ao personagem do gaúcho, homem forte e corajoso, e às sete provas que ele enfrenta, a fim de se colocar frente a frente com a princesa encantada”, afirma Caio.
Como não tenho à mão A Salamanca do Jarau, não posso comparar as duas versões, nem seria meu objetivo fazê-lo. O que me interessa ressaltar é a riqueza do universo da tradição popular concentrada na força mítica deste conto, que também está na origem da fascinante e complexa personagem Luzia Silva, a teiniaguá de Érico Veríssimo, em O continente2.
Na recriação para o público infanto-juvenil, Caio Riter apresenta os personagens de forma direta, ressaltando suas características e situando o espaço da ação: a bela princesa moura que foge da Espanha e das guerras religiosas, com seu amuleto mágico; seus ambiciosos companheiros que, além da segurança, estão atraídos pelos tesouros que diziam existir nas terras do Rio Grande, “ainda não habitadas por gente cobiçosa”; Anhangá-pitã, o diabo cansado da inocência dos nativos, que vê na cobiça dos estrangeiros a oportunidade de disseminar o mal, e para isto transforma a princesa numa lagartixa sem cabeça e seu condão numa pedra vermelha que ficará sendo a cabeça e a luz que atrairá os homens que buscam as riquezas escondidas numa das muitas salamancas ou grutas do Cerro do Jarau. Quem conseguisse aprisionar a guardiã dos tesouros receberia tudo o que desejava, mas somente um homem de coração puro, sem ambição, seria capaz de quebrar o encantamento e libertar a princesa. A história continua, com o amor do sacristão Bento e da princesa, a condenação dele à morte e sua salvação pelos poderes da teiniaguá que o leva para viver com ela nas profundezas do Jarau, também ele encantado. Até que... Quem ainda não conhece a lenda, não se arrependerá de buscá-la neste belo livro ilustrado por Angelo Abu.
Eu fiz mais: há alguns meses ando apaixonada por Érico Veríssimo e seu O tempo e o vento. Das leituras feitas muito tempo atrás, por obrigação acadêmica, pouco havia ficado, mas o entusiasmo com que Tabajara Ruas falou dos dois volumes de O continente, em seu depoimento como escritor de ficção e autor de roteiros de cinema, no Abril com Livros, me contaminou. Comecei de novo e continuo lendo a saga das famílias Terra e Cambará nas terras do Continente de São Pedro. No início do segundo volume, me deparei com a teiniaguá, não mais como lenda, e sim como uma personagem fascinante, com tamanha força e brilho que a tornam inesquecível entre as personagens femininas da obra. Érico mantém os elementos que constituem a lenda sulina, mas vai muito além dela, num jogo de articulação e desarticulação criado com uma sutileza e uma maestria que desperta a admiração do leitor atento. O trecho de apresentação da personagem comprova o que estou tentando resumir:
“Quando Luzia deixou o colégio e mudou-se para Santa Fé, onde passou a ser a “senhora do Sobrado”, todos acharam que, mais do que ninguém, ela merecia o título. E durante muito tempo a neta de Aguinaldo Silva foi o assunto predileto das conversas da vila. As mulheres reparavam nos seus vestidos, nos seus penteados, nos seus “modos de cidade”, mas, bisonhas, não tinham coragem de se aproximar da recém-chegada, tomadas de uma grande timidez e duma sensação de inferioridade. Em muitas esse acanhamento se transformava em hostilidade; noutras tomava a forma de maledicência. Luzia era rica, era bonita, tocava cítara — instrumento que pouca gente ou ninguém ali na vila jamais ouvira —, sabia recitar versos, tinha bela caligrafia, e lia até livros. Os que achavam que Santa Fé não podia dar-se o luxo de ter um sobrado como o de Aguinaldo, agora acrescentavam que a vila também “não comportava” uma moça como Luzia. Para alguns severos pais de família tudo aquilo que a forasteira era e tinha constituía uma extravagância ostensiva que os deixava até meio afrontados. E quando viam Luzia metida nos seus vestidos de renda, de cintura muito fina e saia rodada; quando aspiravam o perfume que emanava dela, não podiam fugir à impressão de que a neta do pernambucano era uma “mulher perdida” e portanto um exemplo perigoso para as moças do lugar. Por outro lado, o passado escuro de Aguinaldo não contribuía em nada para melhorar a situação da moça. Aqueles homens, dum realismo rude,
olhavam para o Sobrado e para seus moradores como para intrusos e acabavam dizendo: “Isso não vai dar certo”.
Os rapazes da vila, conquanto se sentissem atraídos por Luzia, concluíam quase todos que ela não era o tipo que desejavam para esposa. A moça causava- lhes um vago medo que eles não sabiam explicar com clareza, mas que em geral resumiam para si mesmos numa frase: “Não nasci pra corno”. No entanto, desde o momento em que a rapariga chegara, Bolívar Cambará e Florêncio Terra ficaram fascinados por ela, cercaram-na de atenções e não perdiam pretexto para visitar o Sobrado. Faziam isso, porém, de maneira diferente. Bolívar não escondia seus sentimentos: mostrava-se como era — sôfrego, apaixonado, explosivo. Florêncio, entretanto, mantinha-se reservado, silencioso, mas duma fidelidade canina; portava-se, em suma, como um cachorro triste que — temendo ou sabendo não ser querido pela dona — limitava-se a ficar de longe a contemplá-la com olhos cálidos e compridos, cheios dum amor dedicado mas que não tem coragem de se exprimir.
Aguinaldo percebera tudo desde a primeira hora e observava, deliciado, a maneira como a neta tratava os dois rapazes, mangando com ambos, dando a um e outro esperanças que ela própria se encarregava de desmanchar dias ou horas depois com um gesto, uma palavra ou um encolher de ombros”.
Um pouco antes, Aguinaldo fora apresentado em sua condição de forasteiro cuja origem era objeto de muitas histórias e suposições contadas em várias rodas:
“Aguinaldo amava o dinheiro mas não era sovina. Gostava de pagar “comes e bebes” para os amigos, vivia ajudando os necessitados, e era generoso para com seus agregados, peões e comissionados. Quando pela primeira vez aparecera em Santa Fé , no ano em que fora assinada a paz entre farroupilhas e legalistas, causara a pior das impressões. Chegara escoteiro, montado num cavalo magro e manco, e fazendo questão de mostrar a toda gente que tinha as guaiacas atestadas de moedas de ouro. Começaram então a murmurar na vila que Aguinaldo havia descoberto uma salamanca lá para as bandas de São Borja. “Salamanca? Lorotas!”, retrucavam outros. “Isso é dinheiro de contrabando. Conheço pelo cheiro.” E um dia, numa roda de bisca na casa do Alvarenga, o pe. Otero comentou: “Seja como for, não deve ser dinheiro limpo”.
A forma como fez fortuna, emprestando dinheiro a juros altos e pedindo como garantia terras ou gado com valores correspondentes ao dobro ou triplo do capital emprestado, se apossando dos bens dos que não conseguiam pagar, também lhe dava as características do Anhangá da lenda.
E cabe a um outro estrangeiro, este bem recebido em todas as casas, o médico alemão Dr. Winter, apontar outros sinais da personalidade de Luzia que a relacionam pouco a pouco com a misteriosa princesa moura:
“Tinha-a na mente tal como a vira no Sobrado na festa de seu aniversário, toda vestida de preto, junto duma mesa, a tocar cítara com seus dedos finos e brancos. Nessa noite ficara fascinado a observá-la, e houve um minuto em que uma voz — a sua própria a sussurrar-lhe em pensamento — ficara a repetir: Melpômene, Melpôneme... Sim, Luzia lhe evocava a musa da tragédia. Havia naquela bela mulher de dezenove anos qualquer coisa de perturbador: uma aura de drama, uma atmosfera abafada de perigo. Winter sentira isso desde o momento em que pusera os olhos nela e por isso ficara, com relação à neta de Aguinaldo, numa permanente atitude defensiva. Numa terra de gente simples, sem mistérios, Luzia se lhe revelara uma criatura complexa, uma alma cheia de refolhos, uma pessoa, enfim — para usar da expressão das gentes do lugar — “que tinha outra por dentro”.
Uma pista a mais, aproximando agora a personagem da gélida lagartixa:
“Que tinha ela de tão estranho? Talvez os olhos... Eram grandes e esverdeados... Ou seriam cinzentos? Era difícil chegar a uma definição, pois lhe parecia que eles mudavam de cor de acordo com os dias ou com as horas. Possuíam uma fixidez e um lustro de vidro e pareciam completamente vazios de emoção. Winter descobrira que Luzia fitava as pessoas com a mesma indiferença com que olhava para as coisas: não fazia nenhuma distinção entre o noivo, uma mesa ou um bule. Pobre Bolívar! E no dia do noivado, a revelação: “A vasta sala de visitas estava muito clara de sol e Carl notou que o reflexo tricolor da bandeirola duma das janelas tingia a face e o pescoço de Luzia. Uma estigmatizada — fantasiou ele. Achou-a perversamente linda. Estava ela sentada no sofá ao lado do noivo, vestida de crinolina verde, de saia muito rodada com aplicações de renda; tinha cravado nos cabelos dum castanho-profundo grande pente em forma de leque, no centro do qual faiscava um brilhante. Winter pensou imediatamente na bela e jovem bruxa moura que o diabo, segundo a lenda que corria pela Província, transformara numa lagartixa cuja cabeça consistia numa pedra preciosa de brilho ofuscante. Como era mesmo o nome do animal? Ah! Teiniaguá. A sua Musa da Tragédia havia agora virado teiniaguá”.
Os que leram ou lerem a obra do escritor gaúcho podem acompanhar o desenrolar da tragédia anunciada por estes trechos que selecionei, acompanhar os sinais de sadismo e os traços de loucura da personagem, os enfrentamentos com Bibiana, seu oposto, a submissão e o desapontamento de Bolívar, a doença fatal de Luzia. E nos Cadernos de Literatura Brasileira — Érico Veríssimo, encontrarão o ensaio de Regina Zilberman: Mulheres: entre o mito e a história, uma análise bastante convincente da teiniaguá de Érico.




  • 1. Caio Riter. Teiniaguá, a princesa moura encantada. il. Angelo Abu. São Paulo : Scipione, 2006.

  • 2. Érico Veríssimo. O tempo e o vento, parte I. O continente (vol. 2). 3ª ed. São Paulo : Companhia das Letras, 2004.

  • 3. Cadernos de Literatura Brasileira. Instituto Moreira Salles. Número 16 – Novembro de 2003.




  • Dobras da Leitura
    Ano VIII - N.º 46 - jun.jul. 2007
    voltar