ARGÚI DE INCONSEQÜENTES
O GOSTO E A CENSURA DOS HOMENS
QUE NAS MULHERES ACUSAM
O QUE CAUSAM
Sor Juana Inés de la Cruz
Tradução de Anderson Braga Horta1
Homens néscios que acusais a mulher sem ter razão,
sem ver que sois a ocasião daquilo de que a culpais:
se com ânsia sem igual solicitais seu desdém,
por que quereis que ajam bem, quando as incitais ao mal?
Guerreai-lhes a resistência e logo, com gravidade,
dizeis que foi leviandade o que fez a diligência.
Parecer quer o denodo de vosso parecer louco
o menino que faz coco2 e fica a tremer-se todo.
Quereis, com presunção néscia, achar a que perseguis,
se para noiva, Taís, se para amante, Lucrécia.
Que humor pode ser mais raro que o que, falto de conselho,
ele mesmo embaça o espelho e clama por não ver claro?
Ante o favor e o desdém tendes condição igual:
clamar, se vos tratam mal, zombar, se vos querem bem.
Toda opinião sua é insana; pois a quem mais se recata,
se não vos admite, é ingrata, se vos admite, é leviana.
Sempre tão néscios andais que, com desigual nível,
uma culpais por cruel, outra por fácil culpais.
Como há de estar temperada a que vosso amor pretende,
se a que é ingrata vos ofende, se a que é fácil vos enfada?
Mas, entre o enfado e a pena que vosso gosto refere,
bem haja a que não vos quere e em boa hora vos condena.
As vossas amantes penas aos seus vôos dão-lhes alas,
e depois de ruins torná-las, querei-las boas pequenas.
Quem culpa maior tem tido em uma paixão errada:
a que cai porque rogada ou o que roga de caído?
Ou qual é mais de culpar, se ostentam a mesma chaga,
a que peca pela paga, ou o que paga por pecar?
Por que, pois, vos espantais das culpas em que incorreis?
Querei-as qual as fazeis ou fazei-as qual buscais.
Deixai de solicitar, e depois, com mais razão,
acusareis a afeição da que vos for suplicar.
Ah, com muitas armas fundo que lida vossa arrogância,
pois em promessa e em instância juntais diabo, carne e mundo.
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1. Poetas do Século de Ouro Espanhol / Poetas del siglo de Oro Español. Ed. Bilíngüe. Seleção e tradução de Anderson Braga Horta, Fernando Mendes Vianna e José Jeronymo Rivera. Brasília: Thesaurus; Consejería de Educación y Ciencia de la Embajada de España, 2000.

2. O Grande Dicionário de Língua Portuguesa, de Morais, consigna, no verbete coco: fazer coco a alguém: causar-lhe medo, como às crianças.
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