O enigma de
Sor Juana Inés de la Cruz
Tânia Piacentini


No prólogo de seu livro, Sor Juana Inês de la Cruz o Las Trampas de la Fé1, Octavio Paz diz que o enigma de Sor Juana é, na verdade, a soma de muitos enigmas: os de sua vida e os de sua obra. Resumindo para os leitores o percurso de sua relação com a obra da monja, mostra também a permanência do fascínio que o levou a dedicar-lhe leituras, estudos, artigos,
ensaios e cursos que acabaram por se transformar nas alentadas 673 páginas dessa obra igualmente fascinante. “A palavra sedução, que tem ressonâncias ao mesmo tempo intelectuais e sensuais”, diz o poeta, “dá uma idéia muito clara do gênero de atração que desperta a figura de Sor Juana”. Vivenciando esse sentimento, ele se deixa guiar por questões como: “por que ela escolheu, sendo jovem e bonita, a vida do convento?; qual foi a verdadeira índole de suas inclinações eróticas?; qual é o lugar e o significado de sua obra, especialmente de seu poema Primero sueño, na história da nossa poesia?; quais foram suas relações com a hierarquia eclesiástica?; como sua condição de mulher influenciou essas relações?; por que renunciou à paixão de sua vida: as letras e o saber?; essa renúncia foi o resultado de uma conversão ou de uma abdicação?”
Suas respostas constituem um painel histórico-político e cultural da vida na Nova Espanha em fins do século XVII, no florescente México que contrastava com a decadência da Espanha, e a análise da produção poética, teológica e intelectual de Sor Juana lhe permite aprofundar a questão que sempre o desafiou, o lugar da poesia e do poeta na sociedade em que se insere.
No estudo introdutório de uma antologia editada pela Embaixada da Espanha no Brasil2, Manuel Morillo Caballero consegue resumir ao essencial quem foi Sor Juana e qual a importância da sua obra na literatura de língua espanhola. Transcrevo:
“Contudo, a figura mais expressiva da poesia barroca hispano-americana é, sem dúvida, Sor Juana Inés de la Cruz (1651-1695), nome religioso de Juana de Asbaje y Ramírez de Santillana. Foi Juana de Asbaje uma criança precoce e com insaciável sede de conhecimentos, cuja fama induziu o vice-rei do México a convidá-la a estabelecer-se na corte da Nova Espanha. Nesta, sua beleza e inteligência lhe granjearam a admiração de muitos e o favor dos vice-reis, porém a vida na corte não lhe foi fácil, o que, unido a um amor contrariado talvez por impedimentos sociais, foi para ela outra fonte de sofrimento. Uma crise espiritual, ainda não de todo explicada, levou Juana de Asbaje a ingressar no aristocrático convento mexicano das carmelitas, em que só permaneceu alguns meses. Um ano depois transferiu-se para o de São Jerônimo, onde, com o nome de Sor Juana Inés de la Cruz, permaneceu até a morte, aos quarenta e quatro anos de idade.
De sua cela, Sor Juana continuou em contato com as personalidades culturais do México da época, e nela reuniu importante quantidade de livros e de instrumentos científicos e musicais. Na Nova Espanha, o prestígio da monja erudita era crescente, e sua colaboração continuava sendo solicitada nos mais importantes atos sociais. Em 1689 foi publicada em Madri parte de sua obra poética, sob o título de Inundación Castálida.
De especial importância para conhecer o pensamento dessa freira excepcional é a Respuesta a Sor Filotea, longa carta autobiográfica dirigida a seu bispo, na qual Sor Juana justifica sua atividade, e ao mesmo tempo se defende dos que a atacavam. Sor Juana sempre defendeu com valentia o direito que assiste a todo ser humano de manter as próprias atitudes diante da vida, como quando defende a condição da mulher em conhecidíssimas redondilhas.
Muito mais profundo e com elementos procedentes de outras disciplinas é seu longo poema em silvas intitulado Sueño, chamado por alguns Primero Sueño. Trata-se de autêntico “poema del conocimiento”, no qual Sor Juana nos conta como à chegada da noite, no sossego de um sonho, começa o caminho que a conduzirá à compreensão total do Universo. Após percorrer diversas escalas do conhecimento, fracassa em seu intento e desperta. O poema é de alto conteúdo filosófico e científico e de beleza singular. Sor Juana confessa havê-lo escrito imitando Góngora, mas essa afirmação é válida somente quanto ao estilo, visto que a elaboração temática é de grande originalidade.
Com a obra lírica de Sor Juana Inés de la Cruz, o barroco hispano-americano chegou à plenitude de sua maturidade. Os temas mais variados e as estrofes mais diversas tiveram espaço na poesia dessa religiosa da Nova Espanha, considerada por seus contemporâneos “a décima musa da América”.3
Os poemas citados como clássicos podem ser facilmente encontrados e, por isso, escolhi um da Sor Juana feminista avant la lettre para mostrar a fineza de sua inteligência quando empregava o humor e a ironia como recursos literários, perguntando-me quão moderna continua sendo essa surpreendente mulher.

Sor Juana Project - Department of Spanish and Portuguese/Dartmouth College: www.dartmouth.edu



  • 1. México: Fondo de Cultura Económica, 3ª ed. 4ª reimpresión, 1990.

  • 2. Poetas do Século de Ouro Espanhol / Poetas del siglo de Oro Español. Ed. Bilíngüe. Seleção e tradução de Anderson Braga Horta, Fernando Mendes Vianna e José Jeronymo Rivera. Brasília: Thesaurus; Consejería de Educación y Ciencia de la Embajada de España, 2000.

  • 3. Idem, p. 38-9.




  • Dobras da Leitura
    Ano VIII - N.º 41 - jan. 2006
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