Da importância de livros e de bibliotecas

Tânia Piacentini



Em Um velho que lia romances de amor, de Luis Sepúlveda, o narrador nos diz como o personagem Antonio José Bolívar Proaño se decidiu pela leitura de romances de amor, quando pôde fazer sua eleição entre os livros que encontrou na biblioteca escolar de uma cidadezinha maior que sua vila. Ele fora para El Dorado, a quatro dias de viagem de barco, com uma única finalidade: conseguir livros para saciar sua fome de leitura, acabar com “sua desgraça de leitor inútil” e assim fugir do astuto animal da solidão que, pela primeira vez, ao menor descuido, o condenava a falar sozinho.
No quarto capítulo do romance, lemos que o personagem descobrira que sabia ler, quando soletrou as palavras “senhor candidato” e lhe concederam o direito a voto no candidato oficial ao governo de seu país, nas eleições no vilarejo El Idilio, onde vivia, na selva amazônica do Equador. Antonio José, que aprendera com os índios shuar a ler e a respeitar todos os sinais, movimentos e vidas da selva, descobre que também sabe ler as


Um velho que
lia romances de amor
,
de Luis Sepulvéda.
Trad. Josely Vianna Baptista.
São Paulo: Ática, 2004
Relume-Dumará, 2006


palavras escritas em sua língua e isso: “Foi a descoberta mais importante de sua vida. Sabia ler. Era possuidor do antídoto contra o peçonhento veneno da velhice. Sabia ler. Mas não tinha o que ler.”
E aí começa sua busca de material escrito, primeiro os antigos e enfadonhos jornais conservados pelo alcaide como prova de sua ligação com o poder central: os discursos do congresso, os crimes, as crônicas, todos ocorridos num mundo distante, sem referências e sem convites à imaginação do leitor, que assim não se sentia aliciado para exercitar a leitura, continua nos contando o narrador. Mas chega ao porto um padre, que enquanto espera o barco para voltar de sua infrutífera viagem para batizar crianças e legalizar os concubinatos dos colonos, lê um livro que tem um efeito hipnótico sobre Antonio, que o apanha assim que o clérigo o deixa cair, vencido pelo sono e pela canícula.
Junta as sílabas soletrando-as à meia voz, o padre acorda e lhe fornece algumas informações sobre a vida de São Francisco, a biografia que lia, e sobre livros em geral, respondendo às perguntas curiosas do carente leitor. Quando enumerava os tipos de livros — de aventuras, de ciência, de histórias de seres virtuosos, de técnica, de amor... —, Antonio se interessa pelos livros de amor e pergunta ao padre como são. Este, reticente, diz que os conhece pouco, pois não lera senão um par deles, e ante a insistência do interlocutor, descreve: “Bem, contam a história de duas pessoas que se conhecem, se amam e lutam para vencer as dificuldades que os impedem de ser felizes.” O padre parte no barco sem lhe dar o livro, mas desperta nele um desejo maior ainda de ler, o que o faz planejar a tal viagem a El Dorado, a que adiantei no primeiro parágrafo dessa outra narrativa.
O desejo agora incontrolável fora causado pela frase do padre a respeito dos livros de amor: Antonio também amara e sonhara, também havia conhecido as alegrias e esperanças de um amor juvenil, também tentara um filho e uma nova vida com sua amada Dolores, deixando a pobre e digna vida na região serrana natal por apostar nos planos governamentais de colonização da região amazônica e para fugir dos comentários maldosos sobre a possível esterilidade, sua ou da esposa. Assim chegaram juntos a El Idílio e à difícil e desconhecida vida na selva, onde a mulher não resistiu à segunda estação das chuvas “e se foi em meio a febres altísimas, consumida até os ossos pela malária”. O inferno verde lhe roubara o amor e os sonhos, nos conta o narrador, mas lhe sobrara um retrato retocado por um artista serrano com o casal em roupas de festa. E lhe restava também a memória, onde os tecidos do traje, as cores, o bordado da blusa, os brincos e os colares de Dolores Encarnación del Santísimo Sacramento Estupiñán Otavalo readquiriam vida e povoavam a solidão de Antonio. Ele soube, então, que não poderia voltar ao seu povoado serrano, pois “os pobres perdoam tudo, menos o fracasso” e estava obrigado a ficar, odiando aquela região maldita que lhe arrebatara o amor e os sonhos, desejando que um grande fogo convertesse a amazônia numa grande pira.
Porém, um mergulho na vida e na cultura dos índios shuar, com quem passa a conviver até quase se tornar um deles, — com o tempo adquirira músculos felinos, conhecia a selva, rastreava os animais e nadava tão bem quanto um shuar — o faz esquecer o ódio e se sentir em casa na selva. Em cinco anos de vida entre os índios, soube que não mais abandonaria aquelas paragens, mas “era como um deles, mas não era um deles” e sua transgressão a um inderdito capital da cultura indígena, movido pelo afeto e sentimento de lealdade, porém ignorando a forma correta de vingar a morte de um bravo, o faz voltar ao convívio dos brancos, numa vila mudada para pior. Colonos, caçadores, garimpeiros, aventureiros, todos cometiam erros estúpidos na selva, destroçando a natureza, criando desertos, empurrando os indígenas cada vez mais para longe. Antonio José Bolívar também não era mais um branco e se manteve à margem, ficando com todo seu tempo para si mesmo.
É então que ele descobre que sabe ler e o viés da trama que escolhi acompanhar continua, com a decisão do nosso personagem de buscar livros, as medidas que toma para ter condições de viajar, a narração da hospedagem na escola de El Dorado, em troca de ajuda nas tarefas domésticas e construção de um herbário, tudo para ter acesso à biblioteca onde a professora tinha cerca de 50 livros. A visão do conjunto de livros emocionou Antonio: “Foram cinco meses durante os quais formou e poliu suas preferências de leitor, ao mesmo tempo que se enchia de dúvidas e respostas.” As razões para eleger um ou outro gênero de livro são dignas de registro e dizem bem dos interesses e da capacidade de interpretação do leitor a partir de seu lugar no mundo.
Antonio julga os livros de História “um corolário de mentiras”, pois lhe parecia impossível que os senhores pálidos, de luvas até os cotovelos e calções de funâmbulo que apareciam nas imagens fossem capazes de ganhar as batalhas descritas. Diante dos livros de Geometria se perguntou se realmente valia a pena saber ler. O romance de Edmundo D’Amicis, Coração, o manteve ocupado quase toda a metade de sua estada em El Dorado, pois parecia estar grudado em suas mãos e os olhos, mesmo cansados, continuavam lendo. Mas também o descartou, porque tanto sofrimento e tanta maldade não eram possíveis. Finalmente, depois de revirar toda a biblioteca, encontrou o que desejava: “O Rosário, de Florence Barclay, continha amor, amor por todos os lados. Os personagens sofriam e misturavam a felicidade com os sofrimentos de uma maneira tão bela, que a lente se embaçava de lágrimas. ”
Seleção feita, escolhido o gênero predileto, Antonio recebeu o livro de presente da professora, não de todo conformada com o gosto literário do seu hóspede. Ele o leva para sua choça à beira do rio e o lê uma e cem vezes, assim como os outros que passa a encomendar ao dentista que vem no El Sucre duas vezes ao ano para atender os sofridos pacientes do vilarejo: agora que já sabe o que quer ler pode aceitar a oferta do amigo de lhe trazer livros — romances de amor — de Guayaquil. Era o dentista quem lhe provia a biblioteca, trazendo-lhe dois livros a cada vez, selecionados especialmente por uma conhecedora do assunto e amante não só do gênero literário, atendendo as preferências do leitor: sofrimentos, amores desditosos e finais felizes.
A amiga ou dama de companhia do dentista passa a exercer também a função de crítico literário, evitando que ele passasse pelo constrangimento de pedir numa livraria um livro cujas características poderiam ser classificadas como as preferidas das mulheres e dos “velhos frescos”. O narrador, pintando sutilmente um aspecto do perfil do personagem mais educado, mais cultivado, ironiza os juízos de valor e os preconceitos sociais e culturais: livros para homens, literatura feminina, alta literatura, literatura popular...
O barco se ia e Antonio lia em ritmo lento, com a ajuda da preciosa lupa, juntando as sílabas, murmurando-as a meia voz, repetindo a palavra inteira, depois a frase completa, “e dessa maneira se apropriava dos sentimentos e idéias plasmados nas páginas”, na solidão de seu casebre frente ao rio Nangaritza. Também a maneira como eles vinham descritos lhe interessava, pois “quando uma passagem lhe agradava especialmente, ele a repetia muitas vezes, todas as que achasse necessárias para descobrir como também a linguagem humana podia ser bela”. Forma e conteúdo atraem igualmente ao atento leitor, em seu processo de apropriação do texto.
Assim, ele monta a sua biblioteca, e enquanto lê diante da janela, na mesa alta onde come e lê de pé, outros livros o esperam, “insinuantes e horizontais sobre a alta mesa, alheios ao relance desordenado a um passado sobre o qual Antonio José Bolívar Proaño preferia não pensar, deixando os poços da memória abertos, para preenchê-los com as alegrias e tormentos de amores maiores que o tempo”. O narrador, então, revela-nos uma função, talvez a principal, que a leitura tem na vida do velho personagem: ele quer preencher os poços abertos da memória pessoal com as histórias de amor alheias, que se prolongam no tempo, esquivando-se das próprias lembranças, suavizando seu sofrer amoroso com exemplos de histórias com final feliz.
E me lembrei, então, do que nos diz Borges, ou melhor, o narrador do conto A memória de Shakespeare : “À medida que transcorrem os anos, todo homem tem a obrigação de carregar o crescente fardo de sua memória.” Comentando esse conto, outro escritor argentino, Ricardo Piglia, nos lembra que “recordar com a memória alheia é uma variante do tema do duplo, mas é também uma metáfora perfeita da experiência literária”. E define a leitura como “a arte de construir uma memória pessoal a partir de experiências e lembranças alheias. As cenas dos livros lidos voltam como lembranças privadas. São acontecimentos entremeados ao fluir da vida, experiências inesquecíveis que voltam à memória, como uma música”.
E Antonio José Bolívar torna a leitura a parte mais significativa do seu cotidiano, pois, como nos diz o narrador, dormia pouco “cinco horas por noite e duas na hora da sesta. Isso lhe era suficiente. Dedicava o resto do tempo aos romances, a divagar sobre os mistérios do amor e a imaginar os lugares onde aconteciam as histórias.” O nosso personagem tinha que fazer um grande esforço de concentração para imaginar cidades chamadas Paris, Londres ou Genebra, pois sua maior referência do mundo era Ibarra, uma cidade que ele considerava grande mas não apta para amores imensos como os acontecidos em cidades de nomes longínquos e sérios como Praga ou Barcelona. Tinha dúvidas também se o amor encontraria território nas pequenas cidades que havia visto fugazmente com Dolores Encarnación, mas o que mais gostava de imaginar era a neve, que quando menino viu como uma pele de cordeiro posta a secar nas encostas do vulcão Imbabura. A memória própria se entrecruza com as alheias e cria um novo universo...

Sei, porém, que meus leitores pragmáticos estarão se perguntando: mas nada mais acontece neste livro, na realidade, na vida concreta desse personagem? Acontece, sim, a leitura de Antonio é interrompida, a contragosto dele, pela ação principal da trama, anunciada já no primeiro capitulo: uma onça está atacando todos os homens que encontra na selva, enlouquecida porque um caçador matara seus filhotes. Aquele foi o primeiro morto que os índios shuar trouxeram para a vila e Antonio José foi quem elucidou o caso, lendo corretamente os sinais no corpo da vítima e aumentando as divergências com o delegado, que acusava os índios. Uma caçada ao animal que se aproxima tem que ser feita, e é claro que nosso leitor é o encarregado disso.
Mas mesmo no seu turno de vigia durante a caçada, no pequeno armazém já quase na selva fechada, ele lê à luz da lâmpada de carburo, e acaba lendo em voz alta, para todos os companheiros surpresos porque ele sabia ler, os trechos iniciais, que já sabia de cor, do romance que muito lhe agradara desde o início: “Paul a beijou ardorosamente, enquanto o gondoleiro, cúmplice das aventuras de seu amigo, fingia olhar em outra direção, e a gôndola, provida de macias almofadas, deslizava aprazivelmente pelos canais venezianos.” Antonio, que gostara tanto da palavra ‘gôndola’ a ponto de querer batizar sua canoa de A Gôndola do Nangaritza, viu que, por quase duas horas, os homens que esperavam o amanhecer para continuar a caçada, divagaram sobre o amor, a gôndola, o gondoleiro, com piadas picantes e intercâmbio de opiniões, sem decifrar, contudo, o mistério de uma cidade em que as pessoas precisavam de botes para se mover.
Acredito que, com essa costura enviesada do romance de Sepúlveda, deixo clara a importância que devoto aos livros e às bibliotecas, a partir da história de leitura de um personagem fictício, cujo processo de aprendizagem e domínio da faculdade de ler nos é totalmente familiar. Fica claro que para ser ‘leitor útil’ há que existir a vontade, o desejo de ler, em primeiro lugar, mas também são necessários livros para serem lidos, uma quantidade e variedade suficientes para que cada um eleja o seu gênero predileto, os seus temas, os seus enredos, os seus “clássicos”, aqueles livros que nunca acabam de dizer o que têm para dizer, como definiu Ítalo Calvino. Livros que “viciem” o leitor, pois a leitura inquieta, desloca, preenche, responde, diverte, cria novas perguntas, possibilita usos pessoais da criação de um escritor. Tenho certeza de que Sepúlveda não se zangaria se soubesse o uso que fiz de seu livro.




Dobras da Leitura
Ano VII - N.º 33 - mai. 2006
voltar