O Saci Filósofo
Tânia Piacentini



il. J. U. Campos
7.ed. 1941

Quando se comemora o Dia Nacional do Livro Infantil, no aniversário de Monteiro Lobato, dia 18 de abril, volto a O Saci e mesmo agora, leitora madura, me assombro com o que leio. A começar com algumas expressões encantadoras, como a “isto que você está dizendo é tolice pura sem mistura, dita por Pedrinho ofendido pela opinião do saci sobre a estupidez e a lerdeza dos homens para aprender, no início de suas conversas altamente filosóficas sobre natureza, animais e homens, vida e morte. E a terminar com a opinião de Narizinho sobre o saci, que, fugindo dos agradecimentos e das homenagens, deixa sobre o travesseiro da menina um raminho de miosótis — “em inglês, forget-me-not, que significa não-te-esqueças-de-mim”, ensina o narrador: — “Que alma poética ele tem, murmura a menina, comovida”.
Entre uma e outra expressão, desfilam os personagens da brasileiríssima fauna mitológica: os sacis, o jaguar, a onça, a modorrenta sucuri que engoliu um boi, o boitatá, o negrinho do pastoreio, o lobisomem, a mula-sem-cabeça e a terrível cuca. Todos da meia-noite em diante, quando os duendes da floresta saem de suas tocas, na mais completa escuridão, “ali oh, ali a noite o era de verdade — das imensas, das completamente escuras, apenas com aqueles vagalumes parados no céu, que os homens chamam estrelas”.
Neste ambiente, o saci explicava a Pedrinho o que era a vida na natureza


O Saci, de Monteiro Lobato
il. Victor Manoel Filho
56.ed. 1994 (Brasiliense)


e desvalorizava a cultura aprendida, livresca, dos homens, exaltando a sabedoria instintiva dos animais, pregando pequenas peças no menino ignorante dos códigos da floresta: “Inda é muito cedo para você ‘ler’ a mata. Isto é livro que só nós, que aqui nascemos e vivemos toda vida, somos capazes de interpretar”. Mas também contemporizava, concordando que se fica sabido “com o tempo e muita observação. Quem observa e estuda, acaba sabendo”. Na disputa com o saci para demonstrar a superioridade dos homens, Pedrinho argumenta que “O homem é a glória da natureza”. A resposta vem sarcástica: — Glória da natureza! exclamou o capetinha com ironia. Ou está repetindo como papagaio o que ouviu alguém falar ou então você não raciocina. Inda ontem ouvi Dona Benta ler num jornal os horrores da guerra na Europa. Basta que entre os homens haja isso que eles chamam guerra, para que sejam classificados como as criaturas mais estúpidas que existem. Para que guerra?
Pedrinho contra-argumenta: “E vocês aqui não usam guerras também? Não vivem a perseguir e comer uns aos outros?
O saci replica e aconselha, confiante na inocência das crianças: — Sim; um comer o outro é a lei da vida. Cada criatura tem o direito de viver e para isso está autorizado a matar e comer o mais fraco. Mas vocês homens fazem guerra sem ser movidos pela fome. Matam o inimigo e não o comem. Está errado. A lei da vida manda que só se mate para comer. Matar por matar é crime. E só entre os homens existe isso de matar por matar — por esporte, por glória, como eles dizem. Qual, Pedrinho, não se meta a defender o bicho homem que você se estrepa. E trate de fazer como Peter Pan, que embirrou de não crescer para ficar sempre menino, porque não há nada mais sem graça do que gente grande. Se todos os meninos do mundo fizessem greve, como Peter Pan, e nenhum crescesse, a humanidade endireitaria. A vida lá entre os homens só vale enquanto vocês se conservam meninos. Depois que crescem, os homens viram uma calamidade, não acha? Só os homens grandes fazem guerra. Basta isso. Os meninos apenas brincam de guerra. As lições se tornam ainda mais sérias, envolvendo o significado da vida e da morte: Mas que é que faz todas essas vidinhas viverem?
— Ah, isso é o segredo dos segredos! respondeu o saci. Nem nós sabemos. Mas o que acontece é o seguinte: dentro de cada criatura, bichinho ou plantinha, há uma força que a empurra para a frente. Essa força é a Vida. Empurra e diz no ouvido da criaturinhas o que elas devem fazer. A vida é uma fada invisível. (...)
— Mas é invisível até para vocês sacis, que enxergam mais coisas do que nós homens?
— Sim. Eu que enxergo tudo, nunca pude ver a fada Vida. Só os efeitos dela. Quando um passarinho voa, eu vejo o vôo do passarinho, mas não vejo a fada dentro dele a empurrá-lo.
— Então ela deve ser como a gasolina dos automóveis. Sem gasolina, os carros não andam.
— Perfeitamente — concordou o saci — mas com uma diferença; nos automóveis a gente vê e cheira a gasolina, mas a Gasolina-Vida ninguém ainda conseguiu ver nem cheirar.
— E morrer? Que é morrer? A vida então, acaba, como a gasolina do automóvel?
— A vida muda-se de um ser para outro. Quando o ser já está muito velho e escangalhado, a Vida acha que não vale mais a pena continuar lidando com ele e abandona-o. Vai movimentar um novo ser. A fada invisível diverte-se com isso.
Diante de afirmação tão clara e grave, Pedrinho fica muito triste, porque acha, como quase todos nós, que isto não é justo (“Afinal, o que não entristece ninguém é a idéia de não morrer nunca, nunca..”) e diz isto ao saci, que o consola com outra comparação: — Ora, ora. O que morre é o corpo só, a parte que em nós tem menos importância. A grande coisa que há em nós, e nos diferencia das pedras e dos paus podres, que é? A vida. E essa não morre nunca — muda-se dum ser para outro. Tal qual a eletricidade. A tristeza do menino continua e exige do saci novo exemplo e nova conclusão, tentando tornar concreta tanta abstração: — Bobo! O que nesses seus olhos enxerga, não são os olhos: é a fada invisível que há dentro de você. A fada é como o astrônomo no telescópio; e os olhos são como o telescópio do astrônomo. Qual é o mais importante: o telescópio ou o astrônomo? A resposta de Pedrinho o leva a conclamar a vitória da vida, a sua continuidade: “Pois então alegre-se, porque o astrônomo não morre nunca. O telescópio é que se desarranja e quebra...” E nos diz o narrador que “longamente filosofaram os dois”, no escuro da noite, agora sobre a existência ou não de duendes, monstros, capetas, gnomos, os tais “entes da trevas”, no dizer da Tia Anastácia. Discutindo o que é o medo — “que vem da incerteza” — o saci diz que A mãe do medo é a incerteza e o pai do medo é o escuro. Enquanto houver escuro no mundo, haverá medo. E enquanto houver medo, haverá monstros como os que você vai ver.
— Mas se a gente vê esses monstros, então eles existem.
— Perfeitamente. Existem para quem os vê e não existem para quem não os vê. Por isso digo que os monstros existem e não existem. Uma coisa existe
quando a gente acredita nela; e como uns acreditam em monstros e outros não acreditam, os monstros existem e não existem.
Para que tanta filosofia não comece a dar dor de cabeça nos meus leitores, concluo abençoando a literatura, que quando se abre para nós, lida ou narrada de viva voz, nos pede somente que suspendamos a descrença por algum tempo. O necessário para fazer viver os duendes, os bichos, as fadas, os monstros, os filhos do medo, em histórias que nos encantam e nos assustam desde que o mundo é mundo e os homens começaram a viver, no claro e no escuro da natureza. Tudo para nos ajudar a reavivar a poesia da alma.




Dobras da Leitura
Ano VII - N.º 44 - abr. 2007
voltar