O prazer da leitura em voz alta
Tânia Piacentini
Gabriel García Márquez abre seu livro de memórias, Viver para contar1, com a epígrafe:
“A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la.”
E entre as recordações narradas por ele está sua experiência num internato por quatro anos, o Liceu Nacional de Zipaquirá, na etapa escolar correspondente ao nosso ensino médio. Ele descreve a vida no colégio, os amigos, os professores, o dormitório comum a todos os alunos e com um leito separado para o professor de plantão, que se revezava a cada semana, e conta:
“A melhor coisa do Liceu eram as leituras em voz alta antes de dormir. Tinham começado por iniciativa do professor Carlos Julio Calderón com um conto de Mark Twain que os alunos do quinto ano precisavam estudar para um exame inesperado marcado para a primeira hora do dia seguinte. Leu as quatro folhas em voz alta, lá do seu cubículo de papelão, para que os alunos que não tiveram tempo de lê-lo tomassem notas. Foi tão grande o interesse que a partir de então ele se impôs o costume de ler em voz alta todas as noites,
antes de dormir. No começo não foi fácil, porque algum professor carola havia imposto a regra de escolher e expurgar os livros que iam ser lidos, mas os riscos de uma rebelião fez com que a escolha ficasse a critério dos alunos mais velhos.
Começaram com meia hora. O professor de plantão lia em seu camarote bem iluminado na entrada do dormitório geral, e no começo o calávamos com roncos debochados, reais ou fingidos, mas quase sempre merecidos. Mais tarde se prolongaram até uma hora, de acordo com o interesse despertado pelo conto, e os professores foram substituídos por alunos em turnos semanais. Os bons tempos começaram com Nostradamus e com O homem da máscara de ferro, que agradaram a todos. O que até hoje não entendo foi o êxito estrondoso de A montanha mágica, de Thomas Mann, que exigiu a intervenção do reitor para impedir que passássemos a noite em claro esperando um beijo de Hans Castorp e Clawdia Chauchat. Ou a tensão insólita de todos sentados nas camas para não perder uma palavra dos enredados duelos filosóficos entre Naptha e seu amigo Settembrini. Naquela noite, a leitura prolongou-se por mais de uma hora, e foi celebrada no dormitório com uma salva de palmas”.
Creio que o êxito de uma prática como a narrada está alicerçado em coisas como a gratuidade da leitura e da audição: o leitor e os ouvintes estão reunidos para ler e ouvir sem a obrigação de prestar contas, comentar, mostrar-se inteligente ou culto, fazer provas, ser aprovado no vestibular e tantas outras formas de cobrança escolar e social. Também a possibilidade de escolha da obra a ser lida facilita a coesão do grupo em torno de interesses e curiosidades intelectuais e afetivas comuns. A experiência de compartilhar duas horas semanais de leitura em voz alta que, desde junho de 2004, a Sociedade Amantes da Leitura proporciona a sócios e ao público em geral, na atividade que chamamos Leitura às Quintas, tem se revelado gratificante para todos, tanto que se prolonga. A reunião ocorre num local público e o pequeno grupo de leitores em torno das mesas do canto esquerdo do
Rosen Café consegue manter a concentração, o interesse e a atenção necessários, num clima descontraído e aconchegante que um bom café, um copo de vinho no inverno ou de cerveja no verão podem ajudar a manter.
Tudo começou como uma estratégia para juntar os sócios em torno da recém-criada associação: ao interesse de vários entre nós pela leitura de clássicos, muito falados e pouco lidos mesmo entre amantes da leitura, juntou-se a generosidade intelectual e humana de uma das sócias fundadoras. A leitura de A Divina Comédia num grupo onde todos lêem por prazer, desfrutando dos conhecimentos despretensiosamente compartilhados pela nossa guia, foi um privilégio. Teresa Arrigoni, a especialista que nos conduziu pelos cem cantos da obra, exerceu entre nós papel maior até do que teve Virgílio, que guiou Dante somente até a entrada do Paraíso. Ao prazer da fruição de cada um dos cantos lidos em português por nós ou em italiano pela nossa guia juntavam-se a troca de sensações e de opiniões sobre a compreensão, os comentários livres e sem medo de não ter “interpretado corretamente”, as discordâncias com o tradutor na escolha desta ou daquela palavra ou na inversão da frase.
Enfim, íamos da admiração pelas imagens criadas por Dante à cultura da Idade Média, da beleza do estilo às informações religiosas e políticas, da vida do autor à grandiosidade da sua obra. E quantos foram os textos críticos que trocamos, as leituras paralelas que espontaneamente fizemos, as ilustrações de grandes artistas que conhecemos, além da visita ao ateliê de Paulo Gaiad, o artista plástico que nos permitiu apreciar a leitura que fez da obra em seus quadros e painéis nunca expostos em Florianópolis: também lemos as imagens da Divina Comédia!
Sem o saber, creio que estávamos seguindo um conselho de Jorge Luis Borges2, que disse tê-la lido, da primeira vez, de maneira ingênua, deixando-se levar pela leitura, como se estivesse lendo um relato verídico:
“A Comédia é um livro que todos devemos ler. Não fazê-lo é privar-se da melhor dádiva que a literatura pode oferecer, é entregar-se a um estranho ascetismo. Por que negar-se a felicidade de ler a Comédia? Além do mais, não se trata de uma leitura difícil. Difícil é o que está por trás da leitura; as opiniões, as discussões;
mas o livro em si é um livro cristalino. E há o personagem central, Dante, que é talvez o personagem mais vívido da literatura, e há os outros personagens.”
“Quero apenas insistir no fato de que ninguém tem o direito de privar-se dessa felicidade, a Comédia, de lê-la de modo ingênuo. Depois virão os comentários, o desejo de saber o que significa cada alusão mitológica, de ver como Dante pegou um grande verso de Virgílio e conseguiu talvez melhorá-lo ao traduzi-lo. No início temos de ler o livro com fé de criança, abandonar-nos a ele; depois ele nos acompanhará até o fim. A mim vem acompanhando durante muitos anos, e sei que, mal acabe de abri-lo amanhã, encontrarei coisas que não encontrei até agora. Sei que esse livro irá além de minha vigília e de nossas vigílias”.
E cada um de nós teve revelações que se encaixaram na história individual de leitura, no trajeto pessoal de leitor: me lembro de duas epifanias, uma que me permitiu uma releitura da história da própria literatura, uma repaginação na genealogia da metaliteratura, e outra foi o encontro com personagens que ainda circulam nas obras contemporâneas, como mitos e arquétipos literários ou psicológicos, especialmente o episódio da morte de Ulisses. Minha surpresa quanto ao uso da metaliteratura em obra escrita nos primeiros 25 anos de 1300, foi bem esclarecida por Ítalo Calvino, na referência à passagem do Inferno em que Francesca explica a Dante e a Virgílio porque estão ali, ela e seu cunhado Paolo, condenados pelo pecado da luxúria, pela submissão ao desejo. O marido traído os surpreendera e os matara (CantoV), mas foi também a alusão ao poder da leitura que me encantou. Diz Calvino, num comentário escrito em 1985 sobre a obra Tirant Le Blanc,
publicado no seu Por que ler os clássicos3:
“O milênio que está para se encerrar foi o milênio do romance. Nos séculos XI, XII e XIII, os romances de cavalaria foram os primeiros livros profanos cuja difusão marcou profundamente a vida das pessoas comuns e não só dos doutos. Dante é testemunha disso, falando-nos de Francesca, a primeira personagem da literatura mundial que vê sua vida mudada pela leitura dos romances, antes de Dom Quixote, antes de Emma Bovary. No romance francês Lancelot,
o cavaleiro de Galehaut convence Guenièvre a beijar Lancelot; na
Divina Comédia, o livro Lancelot assume a função que Galehaut tivera no romance, convencendo Francesca a deixar-se beijar por Paolo. Provocando uma identificação entre a personagem do livro enquanto age sobre as outras personagens e o livro enquanto age sobre seus leitores (“Galeotto foi o livro e quem o escreveu”), Dante executa uma primeira operação vertiginosa de metaliteratura.
Nos versos de uma concentração e sobriedade insuperáveis, acompanhamos Francesca e Paolo que “sem nenhuma suspeita” se deixam prender pelas emoções da leitura e, de vez em quando, se olham nos olhos, empalidecem, e quando chegam ao ponto em que Lancelot beija a boca de Guenièvre (“o desejado riso”) o desejo escrito no livro torna explícito o desejo experimentado na vida e a vida toma a forma narrada no livro: “a boca me beijou toda trêmula...”.
E aproveito a citação de D. Quixote para dizer que agora o mesmo grupo de leitores está se divertindo e sofrendo com as aventuras do infeliz Fidalgo de La Mancha, sob a coordenação de um leitor mais íntimo do livro, o prof. Rafael Camorlinga. As inúmeras histórias dentro da trajetória da vida do Cavaleiro da Triste Figura acompanhado do bom, sensato e também ingênuo Sancho Pança, que todos conhecíamos desde o primeiro contato com a excelente adaptação de Lobato em nossa infância, têm sido motivo de conversas, debates, muitas risadas e descobertas. Há, por exemplo, um Cervantes feminista que nos Capítulos XII e XIII deixa o leitor se envolver com uma aparente condenação à bela pastora Marcela, por culpa de quem o infeliz Grisóstomo se mata, por não ter seu amor correspondido.
E eis que no capítulo seguinte, Marcela em pessoa faz sua defesa, em meio ao grupo de homens que participavam do enterro: ela defende o direito de aceitar ou não o amor que lhe é declarado, o direito de continuar vivendo livre, mesmo sendo sua beleza motivo para que os homens se apaixonem por ela. Uma de suas falas pode resumir melhor o cerne das argumentações empregadas: “Eu entendo, com o senso natural que Deus me deu, que tudo que é formoso seja amável; mas não alcanço que, por razão de ser amado, seja obrigado o amado por formoso a amar quem o ama”.
Sei que muitas surpresas ainda nos estão reservadas na leitura de D. Quixote, e também na de outros livros que escolhermos para ler em conjunto, e em voz alta se assim o quisermos, pois aceitamos mais este conselho de Borges4:
“Creio que a frase ‘leitura obrigatória’ é um contra-senso; a leitura não deve ser obrigatória. Devemos falar de prazer obrigatório? Por quê? O prazer não é obrigatório, o prazer é algo buscado. Felicidade obrigatória? A felicidade, também a buscamos.
Eu fui professor de literatura inglesa durante vinte anos na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires e
sempre aconselhei aos meus alunos: se um livro os aborrece,
deixem-no; não o leiam porque é famoso, não leiam um livro porque é moderno, não leiam um livro porque é antigo. Se um livro é tedioso para vocês, deixem-no; mesmo que esse livro seja o Paraíso Perdido – para mim não é tedioso – ou O Quixote – que para mim tampouco é tedioso. Mas se há um livro tedioso para vocês, não o leiam; esse livro não foi escrito para vocês. A leitura deve ser uma das formas da felicidade. De modo que eu aconselharia a esses possíveis leitores de meu testamento – que não penso escrever -, eu lhes aconselharia que lessem muito, que não se deixassem assustar pela reputação dos autores, que seguissem buscando uma felicidade pessoal, um gozo pessoal. É o único modo de ler”.
1. Tradução de Eric Nepomuceno.2ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2003. p.192.

2. “A Divina Comédia”, no livro Sete noites. Obras completas III.São Paulo: Globo, 2000. pp. 237-8; 241.

3. Tradução de Nilson Moulin.São Paulo: Companhia das Letras, 1993. p.66.

4. Borges profesor. Martín Arias e Martín Hadis. Buenos Aires: Emecé, 2000. p.346.
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