Um dia com Picasso e Jean Cocteau

Tânia Piacentini



Li com muito prazer e curiosidade, e me detive bastante nas fotos, procurando os detalhes descritos pelo autor, o livro Um dia com Picasso. 29 fotografias de Jean Cocteau, de Billy Klüver (José Olympio, 2003, tradução de Sonia Coutinho). E pensei:


Um dia com Picasso
29 fotografias de Jean Cocteau
,
de Billy Klüver.


eis um belo exemplo de pesquisa histórica feita a partir de imagens fotográficas.
A metodologia da pesquisa é descrita numa linguagem especializada, mas sem didatismo e ao alcance de qualquer leitor interessado em fotografia, agora vista como documento. Passo a passo, o autor nos diz como e porque recolheu as fotos, a história das buscas das outras fotos feitas no mesmo rolo, a identificação dos locais onde elas foram tiradas, o dia, a hora. Para isto, situa-nos na época, nos dá um resumo saboroso da biografia dos personagens fotografados e do fotógrafo, nos conta como teria sido aquele dia na vida de todos eles. Um pequeno flash, um zoom na história de figuras hoje públicas, porque fazem parte da história da arte, da história da cultura do século XX.
Quem não se interessa em saber “la petite histoire” de um dia específico da vida de Picasso, que seria o autor do convite para um almoço onde se juntam o versátil e também criativo Jean Cocteau com sua Kodak, Max Jacob, Ortiz de Zarate, Henri-Pierre Roché, e Marie Wassilieff? Que o almoço acontece às 13h, no Chez Baty, restaurante predileto de Picasso e do ausente Appollinaire, ali na esquina a sudeste do Boulevard Monparnasse e Boulevard Raspail, e que, após, foram ao Café de la Rotonde, onde Moïse Kisling uniu-se a eles, e também Pâquerette, a modelo e namorada de Picasso? Que alguns se retiraram do grupo para seus afazeres pessoais, mas que à saída do café, por volta das 15h30m, Modigliani e André Salmon juntaram-se aos remanescentes, vindos provavelmente da rua Campagne Première, onde morou Modigliani e onde ficava seu restaurante predileto?
A cada personagem novo a história se amplia, e ficamos sabendo mais e mais sobre a vida cultural e política da Paris onde a guerra ainda não chegara. E o autor do livro nos ensina que a precisão dos horários daquele dia 12 de agosto de 1916 foi possibilitada pesquisando a seqüência das fotos, os locais,os mesmos prédios do Boulevard Montparnasse, no início da década de 80 ainda do século passado, a luz do sol, as sombras, a posição e direção da máquina, além de pesquisa no Bureau des Longitudes de Paris para determinar a data!
Uma leitura agradabilíssima de um belo livro com fotos, mapas e desenhos dos artistas, agora eternamente envolvidos nessa trama que as imagens captadas pela Kodak de Jean Cocteau criaram!




Dobras da Leitura
Ano VII - N.º 32 - abr. 2006
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