Livros e Amigos = Bibliofilia
Tânia Piacentini


As pessoas que gostam de ler sabem que o ato de presentear livros tem muitos significados. Quando recebo um livro de presente, geralmente sinto um estremecimento, uma mistura de prazer e curiosidade, ansiedade mesmo: o que será? Será que eu vou gostar? E como acredito que um livro diz muito sobre quem o dá e sobre o que ele pensa ou sente em relação ao presenteado, imediatamente me faço a pergunta: por que este livro?
Há poucos dias me senti homenageada com um presente, a delicada obra de arte que é a edição de Philobiblon, de Richard de Bury, feita por uma editora que prima pelo bom gosto, o Ateliê Editorial. De pequeno formato, simples e sóbrio, quase cabe inteiro entre as mãos do leitor que se dá imediatamente o prazer de tatear o contraste que os olhos perceberam no material empregado na capa:
a sedosidade do papel azul e a quase aspereza do papelão cinza. Tudo revela um cuidado especial, do projeto gráfico ao papel do miolo, o tipo selecionado, as vinhetas, a ilustração da capa perfeitamente adequada à época de escrita da obra, a Idade Média das iluminuras e dos ateliês dos mosteiros. Imediatamente me lembrei do meu pequeno livro de orações, um daqueles que se ganhava quando se fazia a primeira comunhão na Igreja Católica! Além do tamanho, a relação foi propiciada pelo fato de o autor ser Bispo de Durham e Chanceler de Eduardo III da Inglaterra, e da obra, escrita entre 1344 e 1345, ser “a primeira publicação a abordar exclusivamente a paixão pelos livros”. São motivos suficientes para lhe conferir um pouco da sacralidade que os apaixonados concedem aos objetos especiais consagrados pela história. A aproximação que estabeleci também é referendada no prefácio do tradutor, Marcello Rollemberg, lembrando o leitor que o livro “foi realizado em plena Idade Média, quando a leitura, os livros e os estudos universitários eram patrimônio praticamente exclusivo da Igreja”.
Um outro motivo para minha atenção especial ao presente que recebi foi a coincidência de gostos e de interesses: eu já havia me presenteado com uma edição francesa do livro!1 Imediatamente a busquei, feliz por possuir agora duas edições de obra tão especial. É claro que reli o prefácio e as notas francesas, enriquecendo as informações dadas pelo tradutor brasileiro, e andei comparando alguns trechos das duas traduções, um capítulo aqui, outro ali. Mas embora me atraia este exercício, me contento com a possibilidade de uma comparação mais aprofundada se e quando o desejar. Agora desfruto e compartilho o prazer da leitura em língua materna do belo presente, que, ainda por cima, me possibilitou um encontro virtual com um outro amigo, o meritoriamente homenageado na dedicatória do prefácio, Aníbal Bragança. O que só confirma a tese de que amigos dos livros acabam sempre se encontrando no território da leitura...
Philobiblon é considerado “o último clássico latino e a primeira obra política, em substância, a propor a adoção de regras estritas, eficazes e perenes sobre o funcionamento das bibliotecas e, incidentalmente, sobre o modo de conservação, renovação e enriquecimento de seus respectivos acervos”1, e o discurso do autor mistura a seriedade das referências teológicas a um notável conjunto de pensamentos didáticos e histórias autobiográficas, muitas vezes com pitadas de ironia e amostras de bom humor. Discurso, enfim, que condensa a experiência de toda uma vida eclesiástica a serviço da Igreja e do Estado — como Chanceler da Inglaterra, desempenhou durante 20 anos funções políticas de alta responsabilidade —, mas também a serviço de sua maior paixão: os livros. Dono de uma grande e rara biblioteca formada como prioridade ao longo de toda a vida, somente pôde dedicar-se aos livros com exclusividade em seus dois últimos anos, quando, já aposentado e doente, conseguiu finalmente cumprir sua vocação de “humanista letrado”, escrevendo em 20 curtos capítulos sua obra-testamento.
E nela temos diferentes portas de entrada, vários pretextos para pausas e reflexões, máximas para uso próprio, conselhos e exemplos a serem seguidos ou rechaçados, neste início de novo milênio em que começam a circular e a se fortalecer entre nós as teorias, as práticas e as políticas de leitura. Algumas sínteses ou apresentações de capítulos já dão noção do que o leitor vai encontrar: “Elogio à Sabedoria e ao Livro, onde Ela Reside”; “De como os Livros Devem ser Preferidos às Riquezas e aos Prazeres”; “De como os Livros Devem ser Comprados Sempre, com Exceção de Dois Casos”; “Onde o Autor Lamenta a Destruição dos Livros Causada por Guerras e Incêndios”; “De como os Antigos Estudantes eram Superiores aos Atuais em Fervor Discente”; “De como os Livros Devem ser Tratados com Extremo Cuidado”; “Regulamento para o Empréstimo de Livros”.
No capítulo IV o autor dá voz aos próprios livros que, entre outras queixas feitas aos maus clérigos pela ingratidão em relação a quem tudo lhes ensina e pelos maus tratos que lhes dispensam, concentram a somatória das ofensas na substituição, nas casas daqueles, “por cachorros, gatos e gansos e, mais ainda, por esse animal bípede que se chama mulher, com quem os clérigos não deveriam viver e de quem nossos discípulos devem fugir como se se tratassem de víboras, de acordo com nossos ensinamentos. Apenas este animal, sempre nocivo a nossos trabalhos, sempre implacável, descobre o lugar onde nos escondemos, protegidos simplesmente por uma teia de aranha, e nos arranca dali insultando-nos com as palavras mais injuriosas. Ela pretende demonstrar que ocupamos, sem trazer qualquer proveito, o mobiliário da casa, que somos incompatíveis com todo o serviço da economia doméstica e, em seguida pensa que seria preferível substituir-nos por um precioso adorno, por tecidos de seda, por um lenço escarlate bem cuidado, por vestidos, por veludo, por lã ou linho”.3 Lido sem os necessários descontos que se deve conceder à época, à formação e à situação clerical do autor, o trecho choca a sensibilidade de qualquer uma ou um de nós que não seja misógino. Mas uma leitura bem situada permite evocação e riso de situações semelhantes, que ainda persistem nos dias de hoje: quem não conhece histórias de viúvas ou filhos que procuram os sebos para se livrar da biblioteca do morto, que atravanca a casa?
E ainda outro alerta pode ser feito aos bibliófilos, usando os capítulos finais como exemplo. Num, o autor expõe seu desejo de fundar uma ala perpétua de caridade na Universidade de Oxford, com uma biblioteca enriquecida com os seus livros e já se defende dos detratores de seu gesto, que vêem nisso principalmente vaidade e defesa de interesses próprios. No capítulo seguinte, faz seu testamento legando as obras aos estudantes daquela universidade e determinando as regras para o bom funcionamento da biblioteca. E, no último, reconhece: como “quase tudo o que o ser humano faz está recoberto pela poeira da vaidade, não ousamos justificar de forma absoluta o ardente amor que sempre sentimos pelos códices, o que pode ter nos dado a oportunidade de cometer algum pecado venial, por mais que o objeto desse amor seja honesto e a intenção, reta” .4 Deseja, então, o sufrágio das orações e o agradecimento dos estudantes através de atribuições espirituais, conservando-se assim na memória dos que pedem o perdão e a misericórdia do Senhor para sua alma.
Não sei se ele conseguiu integralmente seu intento. A nota biográfica do meu exemplar francês diz que as dívidas reveladas na abertura do testamento e a venda de uma parte substancial da biblioteca particular do Bispo de Durham explicariam, em parte, o fato de a edição princeps do Philobiblon só ser editada em 1473. Quem sabe, então, nós, os seus leitores, agradecidos e irmanados pelo prazer de constatar a paixão pelos livros que evola de sua obra, não podemos incluí-lo em nossas orações? Cada bom livro lido é uma forma de oração, diz o bom bispo. E o dele vale bem uma missa!



  • 1. Richard de Bury. Philobiblion Excellent traité sur L’Amour des Livres. Préface, traduction et notes: Bruno Vincent. L’Aventurine, Paris, 2001. Parangon.

  • 2. Bruno Vincent. Préface, p.6 da edição francesa, tradução minha.

  • 3. Richard Bury, no Philobiblon brasileiro. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2004, pp.50 -1. Coleção O Prazer do Livro.

  • 4. Idem, p. 161.




  • Dobras da Leitura
    Ano VII - N.º 38 - out. 2006
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