Olhos de ouvinte, ouvidos de leitor
Tânia Piacentini
Cada vez mais me convenço de que a leitura em voz alta é um dos mais simples e poderosos recursos de que dispomos para compartilhar nosso afeto e admiração por um texto literário, seja ele um poema, um conto, uma novela ou um romance inteiro. E com a vantagem de, ao mesmo tempo, seduzir novos leitores, de todas as idades, e envolvê-los no clima especial que a audição de uma boa história proporciona, e creio que com os mesmos resultados que um experiente contador de histórias atinge. Na atenção concentrada na voz, os olhos e os ouvidos do espectador são olhos e ouvidos de leitor que escreve em seus sentidos e sua memória as palavras que ouve e, ao mesmo tempo, lê, nos olhos, nos lábios, na face do narrador.
Um texto que Francisco Marques, o Chico dos Bonecos, escreveu como prefácio de seu livro
Muitos dedos: enredos: um rio de palavras deságua num mar de brinquedos1
veio reforçar a minha certeza, colhida também na minha vivência. Transcrevo-o:
“Certa vez, uma professora revelou o seguinte segredo...
Da minha época de escola? Ah...
A grande lembrança da minha época de escola são os olhos da minha professora quando lia uma história para a turma.Os seus olhos transitavam das páginas do livro para a turma, da turma para as páginas do livro, num passeio suave, quase um bailado. Do livro para a turma, da turma para o livro, sem que a leitura sofresse qualquer tropeço. Suave bailado, das páginas do livro para a turma, da turma para as páginas do livro...E eu torcia para que os seus olhos de leitora esbarrassem nos meus
olhos de ouvinte — e eles sempre se esbarravam, e até demoravam uns nos outros.Cheguei a imaginar, na minha imaginação de menina, que a história também estava escrita nos nossos olhos. Era como se a história estivesse sendo lida, alternadamente, no livro e nos ouvintes.Cheguei a imaginar, na minha imaginação de menina, que as páginas do livro eram os ouvintes da história que a professora lia nos nossos olhos.
Isso mesmo: o livro era o ouvinte da história que a professora lia na gente. Nós éramos os livros, obras vivas, vivíssimas!O tempo foi passando, passando...Aqueles sentimentos provocados pela professora-leitora me ligaram eternamente à palavra escrita, e me fizeram trazer a leitura para esse território íntimo de nossas vidas, onde só circula o que é essencial – como, por exemplo, a amizade”.
A beleza do depoimento dispensa comentários, mas acrescento um outro exemplo para os que hesitam em acreditar que tudo isso é verdade e passível de execução por um leitor apaixonado, generoso e responsável o suficiente para compartilhar suas histórias prediletas respeitando o texto literário, deixando que seja ele a estrela da atividade, e, o que é muito importante, também e mesmo nas escolas. Argumentos não faltam num livro teórico-poético-paradidático-prático que merece leitura integral e espaço próprio para conversa e discussão:
Como um romance2, do professor e escritor francês Daniel Pennac.
O testemunho de uma estudante, possível colega de Pennac, evocando o professor de ambos, o poeta Georges Perros, é o ponto de partida para o capítulo 36 do livro:
“Ele (Perros) chegava desgrenhado pelo vento e pelo frio, em sua moto azul e enferrujada. Encurvado, numa japona azul-marinho, cachimbo na boca ou na mão. Esvaziava uma sacola de livros sobre a mesa. E era a vida. Sim, era a vida: uma meia tonelada de livros, cachimbos, fumo, um exemplar dos jornais France-Soir ou L’Équipe, chaves, carnês, recibos, uma vela de sua moto... Dessa desordem ele puxava um livro, nos olhava, começava com um riso que nos aguçava o paladar e se punha a ler. Ele caminhava, lendo, uma das mãos no bolso, a outra, a que segurava o livro, estendida, como se, lendo-o, ele o oferecesse a nós. Todas as suas leituras eram como dádivas. Não nos pedia nada em troca. Quando a atenção de um ou de uma entre nós esmorecia, parava de ler um segundo, olhava o sonhador e assobiava. Não era uma repreensão, era um alegre apelo à consciência. Ele não nos perdia nunca de vista.
Mesmo do fundo de sua leitura, ele nos olhava por cima das linhas.
Tinha uma voz sonora e clara, um pouco nasalada, que enchia perfeitamente o volume das salas de aula, como teria ocupado todo um anfiteatro, um teatro, o Champ de Mars, sem que jamais uma palavra fosse pronunciada mais alto que a outra.
Guardava, instintivamente, as dimensões do espaço e de nossos miolos. Ele era a caixa de ressonância natural de todos os livros, a encarnação do texto, o livro feito homem. Por sua voz, descobríamos de repente que aquilo tudo tinha sido escrito para nós. Essa descoberta surgia após uma interminável escolaridade em que o ensino das Letras nos havia mantido a uma respeitosa distância dos livros. O que fazia ele a mais do que os nossos outros professores? Não muito. Sob certos aspectos, fazia mesmo muito menos. Só que não nos entregava a literatura num conta-gotas analítico, ele a servia para nós em copos transbordantes, generosamente... E nós compreendíamos tudo que ele nos lia. Nós o escutávamos. Nenhuma explicação do texto seria mais luminosa do que o som de sua voz quando ele antecipava a intenção do autor, acentuava um subentendido, revelava uma alusão... Ele tornava impossível o contra-senso”.
O trecho sintetiza o poder da leitura em voz alta, apaixonadamente compartilhada e ao mesmo tempo aponta as qualidades manifestadas no desempenho gestual e oral do professor-leitor. Não perder os alunos de vista, antecipar a intenção do autor, acentuar um subtendido, revelar pela entonação uma alusão contida no texto são coisas que só um leitor que previamente se apoderou do texto, tornando-o tão seu, tão íntimo de sua razão e de sua sensibilidade que ele se vê quase obrigado a dividir a emoção com outros. Que sejam alunos, crianças ou jovens esses outros, é sinal de respeito e de afeto, como bem compreendeu Pennac, que afirma no mesmo capítulo:
“Ele nos falava de tudo, nos lia tudo, porque não supunha que tivéssemos uma biblioteca na cabeça. Seria má-fé a merecer grau zero. Ele nos tomava pelo que éramos, jovens colegiais incultos e que mereciam saber [....] Entretanto, não se fazia de professor-coleguinha, não era o seu gênero. Ele prosseguia simplesmente o que chamava de seu ‘curso de ignorância’. Com ele a cultura deixava de ser uma religião de Estado e o balcão de um bar era uma tribuna tão aceitável quanto um estrado de sala de aula. Nós mesmos, ao escutá-lo, não sentíamos vontade de entrar para uma religião, de vestir o hábito do saber. Nós tínhamos vontade de ler e pronto [...]
E quanto mais líamos, mais, em verdade, nos sentíamos ignorantes, sós sobre as praias de nossa ignorância, e face ao mar. Com ele, no entanto, não tínhamos medo de nos molharmos. Mergulhávamos nos livros, sem perder tempo em braçadas friorentas. Não sei quantos, entre nós, se tornaram professores..., não muitos, sem dúvida, o que é uma pena, porque, no fundo, fazendo de conta que não, ele nos legou uma bela vontade de transmitir”.
E o agora professor Pennac vai em frente, e comprova como ainda é possível reconciliar alunos e literatura, fazendo-os gostar de ler. Como é possível levá-los a ler também os autores dos programas oficiais, mesmo que seja para cumprir o ritual escolar. E a teoria, e a análise literária, e a interpretação dos textos?
“A partir do momento em que esses adolescentes estejam reconciliados com os livros, eles vão percorrer voluntariamente o caminho que vai do romance ao autor, do autor à sua época e da história lida aos seus múltiplos sentidos”.
Termino já no capítulo 10 da segunda parte do livro, pedindo ao autor que diga o que eu gostaria de dizer, usando-o, enfim, para que, através dele, eu possa fugir das minhas já tão repetidas palavras:
“O homem que lê de viva voz se expõe totalmente. Se não sabe o que lê, ele é ignorante de suas palavras, é uma miséria, e isso se percebe. Se se recusa a habitar sua leitura, as palavras tornam-se letras mortas, e isso se sente. Se satura o texto com a sua presença, o autor se retrai, é um número de circo, e isso se vê. O homem que lê de viva voz se expõe totalmente aos olhos que o escutam.
Se ele lê verdadeiramente, põe nisso todo o seu saber, dominando seu prazer; se sua leitura é um ato de simpatia tanto pelo auditório como pelo texto e seu autor; se consegue fazer entender a necessidade de escrever, acordando nossas mais obscuras necessidades de compreender, então os livros se abrem para ele e a multidão daqueles que se acreditavam excluídos da leitura vai se precipitar atrás dele”.
(Eu continuaria fazendo desse livro um manual, se ainda fosse professora de Metodologia e Prática de Ensino de Língua e Literatura, ou se lecionasse em qualquer nível de ensino!).
1. São Paulo: Peirópolis, 2005.

2. Tradução de Leny Werneck. Rio de Janeiro : Rocco, 1993.
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