A missão da leitura
Tânia Piacentini


É possível tirar férias de si mesma? Eis a pergunta que me fiz, ao retomar meus alinhavos e me ver, ainda e outra vez, enredada nos mesmos temas, às voltas com esse assunto que tanto me interessa, desde não sei quando. Ora, deixemos as datas pra lá: “As obsessões são eternas”, me consolou um dia um analista! Assumo, pois, que na volta de minha curta viagem de férias, encontrei, em três dos muitos livros que não couberam na bagagem propositadamente pequena, excertos sobre leitor e leitura que quero dividir aqui nessas dobras.
Começo com Augusto Meyer [1] e o seu Do leitor: “Ler um livro é desinteressar-se a gente deste mundo comum e objetivo para viver noutro mundo. A janela iluminada noite adentro isola o leitor da realidade da rua, que é o sumidouro da vida subjetiva. Árvores ramalham. De vez em quando passam passos. Lá no alto estrelas teimosas namoram inutilmente a janela iluminada. O homem, prisioneiro do círculo claro da lâmpada, apenas ligado a este mundo pela fatalidade vegetativa do seu corpo, está suspenso no ponto ideal de uma outra dimensão, além do tempo e do espaço. No tapete voador só há lugar para dois passageiros: leitor e autor.
Os rumores do momento não conseguem despertar o sonâmbulo encantado, a caminhar sem vacilações sobre o fio invisível da fantasia. Descobriu, pela mão do autor, outro mundo, sublimado e depurado, e dentro dele alguém gritou: terra! Terra! Volveu a si mesmo.”
Continuo com O Leitor, de Rainer Maria Rilke [2], em tradução de Augusto de Campos: Quem pode conhecer esse que o rosto
mergulha de si mesmo em outras vidas,
que só o folhear das páginas corridas
alguma vez atalha a contragosto?

A própria mãe já não veria o seu
filho nesse diverso ele que agora,
servo da sombra, lê. Presos à hora,
como sabermos quanto se perdeu

antes que ele soerga o olhar pesado
de tudo o que no livro se contém,
com olhos, que, doando, contravêm
o mundo já completo e acabado:
como crianças que brincam sozinhas
e súbito descobrem algo a esmo;
mas o rosto, refeito em suas linhas,
nunca mais será o mesmo.
Com Maurice Blanchot [3], no livro O espaço literário, confesso que é a leitura literária que me apaixona: “A leitura que toma a obra pelo que ela é, e, assim, a desembaraça de todo o autor, não consiste em introduzir, no lugar dele, um leitor, uma pessoa fortemente existente, possuidora de uma história, uma profissão, uma religião e até de leitura, que, a partir de tudo isso, começaria, com a outra pessoa que escreveu o livro, um diálogo. A leitura não é uma conversação, ela não discute, não interroga. Jamais pergunta ao livro e, com mais fortes razões, ao autor: ‘O que foi que você quis dizer exatamente? Que verdade me traz, portanto?’ A leitura verdadeira jamais questiona o livro verdadeiro; mas tampouco é submissão ao ‘texto’. Somente o livro não literário se oferece como uma rede solidamente tecida de significações determinadas, como um conjunto de afirmações reais: antes de ser lido por alguém, o livro não literário já foi lido por todos e é essa leitura prévia que lhe assegura uma existência firme. Mas o livro que tem sua existência na arte não tem sua garantia no mundo, e quando é lido, nunca foi lido ainda, só chegando à sua presença de obra no espaço aberto por essa leitura única, cada vez a primeira e cada vez a única. Daí a estranha liberdade de que a leitura — literária — nos dá o exemplo. Movimento livre, se ela não está submetida, se não se apóia em nada que lhe esteja presente. O livro aí está, sem dúvida, não só a sua realidade de papel e de impressão, mas também a sua natureza de livro, esse tecido de significações estáveis, essa afirmação que ele deve a uma linguagem preestabelecida, esse cercado, também, que forma em redor dele a comunidade de todos os leitores, entre os quais, eu que não o li, já me encontro, e esse cercado é ainda o de todos os livros que, como anjos de asas entrelaçadas, velam estreitamente sobre esse volume desconhecido, pois um único livro em perigo ocasiona uma perigosa brecha na biblioteca universal. O livro, portanto, aí está, mas a obra ainda está escondida, ausente talvez radicalmente, dissimulada, em todo o caso, ofuscada pela evidência do livro, por trás da qual aguarda a decisão libertadora, o Lázaro, veni foras. Fazer cair essa pedra parece ser a missão da leitura: torná-la transparente, dissolvê-la pela penetração do olhar que, com ímpeto, vai mais além.”
O meu desejo — ampliado pelo entusiasmo de outros apaixonados pela leitura literária — é continuar colocando bons livros ao alcance de muitos leitores, para que a literatura possa sensibilizar mais e mais corações e mentes. Nas estantes da Barca dos Livros há centenas de livros à espera de mãos curiosas e olhos atentos. A cada leitor cabe realizar o pequeno milagre de fazer aparecer a obra escondida na evidência do livro. Basta tomar “a decisão libertadora, o Lázaro, veni foras, sem medo das mudanças que podem ocorrer no recolhimento da leitura do livro que leva para sua casa. Cada pedra dissolvida pelo olhar do leitor torna a missão da leitura mais e mais prazerosa.



  • 1. À sombra da estante, Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Ed., 1947, encontrado à página 45 da Revista Bibliográfica & Cultural, Oficina do Livro, nº 1, maio 1999, editada por Cláudio Giordano.

  • 2. Augusto de Campos. Coisas e anjos de Rilke, São Paulo: Perspectiva, 2001. p. 145.

  • 3. Maurice Blanchot. O espaço literário, Rio de Janeiro: Rocco, 1987. Não cito a página, pois não encontrei meu exemplar!




  • Dobras da Leitura
    Ano VIII - N.º 52 - fev. 2008
    voltar