Uma mãe e seu filho, escritores
Tânia Piacentini
Estes alinhavos vão para os meus amigos Milice e Quim,
reiterando a promessa de uma visita, lá na cidade do Porto.
Escrevi há algum tempo atrás, num outro texto, que os mapas da leitura se traçavam das mais variadas formas
e com o auxílio de pessoas e instrumentos, mas que, para mim,
eram os próprios livros que terminavam por exercer
o duplo papel de tesouro encontrado e de guia para outras viagens e portos.
Comprovei a veracidade desse argumento no roteiro que percorri com dois livros,
escritos o primeiro por uma mãe, o segundo pelo seu filho, autores portugueses.
Esta fórmula pouco convencional de se referir a escritores se fixou
em minha mente desde a lembrança da primeira audição e leitura do livro e CD de Sophia de Mello Breyner Andresen
— Signo (escolha de poemas) —, (da Editorial Presença/Casa Fernando Pessoa),
que, vim a saber depois, era a mãe de Miguel Sousa Tavares, autor de Equador, da Nova Fronteira.
A história toda começa com o presente que uma amiga deu para a, à época, futura Biblioteca Barca dos Livros: quatro lindas caixas para livros/cds de poesia, todos os poemas lidos por leitores/atores: os de Sophia são encantatoriamente ditos por Luís Miguel Cintra1. Desfrutar a escuta dos versos, apreciando a voz, a pronúncia, a tonalidade e o ritmo com os cortes e pausas da fala portuguesa, já propicia uma entrega de sentidos, e a vivência prazerosa do momento abriu espaço para muitas divagações. A que se me fixou, depois de muitas audições e leituras que me permitiram também reencontrar Fernando Pessoa e desembarcar, com ele,
pela mão de Sophia em portos de ilhas gregas, foi: que mulher foi esta escritora tão sensível? Daí a me perguntar depois como seria conviver com ela, como ela teria criado seus filhos, e como ser escritor sendo filho dela, foi uma decorrência que a curiosidade intelectual e afetiva permite quando se reuniu as informações objetivas necessárias, juntando alguns pontos do inesgotável mapa literário. No embalo das ondas do mar português, viajei com Luís Bernardo — o personagem de Equador — a 1905 e a São Tomé, aquela ilha que costumamos citar sempre junto com a outra, a Príncipe, ambas ali, quase coladas à convencional linha que divide o mundo ao meio. O romance havia sido adquirido também há algum tempo, e na orelha do livro eu ficara sabendo do parentesco com a consagrada poeta.
Arisca, me lembrei do alerta que eu havia copiado, esquecendo de anotar a fonte: “normalmente é aconselhável desconfiar quando a reputação de um escritor está atrelada a algum evento extraliterário. Mesmo quando o autor está à altura, ou acima, de sua notoriedade, a distorção afeta o impacto estético da obra”. Aqui, o filho corria o risco de se aproveitar do prestígio da mãe para ser bem recebido. Não é o caso. Ainda no que pode ser considerado o começo do avantajado romance — são 518 páginas —, eu já estava tão absorvida pelo enredo e pelo estilo que esquecera os possíveis prós ou contras extraliterários, os paratextos de que hoje é quase impossível fugir.
Da obra da mãe, que reúne poemas selecionados cronologicamente, extraio o que singela e decididamente abre o livro e aponta o norte que guiou a seleção:
MAR
De todos os cantos do mundo Amo com um amor mais forte e mais profundo Aquela praia extasiada e nua, Onde me uni ao mar, a vento e à lua.
Um outro tem o nome da série dedicada a:
FERNANDO PESSOA
Teu canto justo que desdenha as sombras Limpo de vida viúvo de pessoa Teu corajoso ousar não ser ninguém Tua navegação com bússola e sem astros No mar indefinido Teu exacto conhecimento impossessivo
Criaram teu poema arquitectura E és semelhante a um deus de quatro rostos E és semelhante a um deus de muitos nomes Cariátide de ausência isento de destinos Invocando a presença já perdida E dizendo sobre a fuga dos caminhos Que foste como as ervas não colhidas
Resistindo à tentação de dividir aqui a beleza e a força de Em Hydra, evocando Fernando Pessoa, pelo tamanho do poema, aclaro que outra seção do livro se chama Navegações, e ressalto que, na quarta e parte final, há o poema chamado
ILHA DO PRÍNCIPE
Suave, doce, lânguida ilha de transparências súbitas Ruy Cinatti
A ilha do príncipe que o Ruy Cinatti amou Surgia devagar E ele debruçado na amurada do navio A viu emergir dos longes da distância No lento aproximar Flor que desabrocha à flor do mar Entre alísios vidros e neblinas Na salgada respiração da vastidão marinha Na transparência súbita
Eu cheguei mais tarde no ronco do avião Na bruta rapidez Porém também eu me banhei nas longas ondas Das praias belas como no princípio do mundo E atravessei o verde espesso da floresta
E respirei o perfume da ocá recém-cortada
Os versos finais me servem de isca para convidar os leitores a
mergulhar nas páginas de Equador, onde “as florestas, as ocás e as praias
belas como no princípio do mundo” são o cenário para o drama existencial do
personagem envolto na dura realidade histórica e política de um povo e de uma terra colonizada, em conflito com os interesses da metrópole. Todo um passado não tão distante assim emerge, e permite que nos debrucemos sobre uma parte da história que tanto tem a ver conosco, herdeiros que somos deste mesmo povo navegante.
E me dou conta de que os poemas de Sophia que acabei escolhendo são âncoras, são bússolas, são matéria comum aos mares e terras portuguesas percorridos no romance de Miguel. O que acaba iluminando aquele velho ditado que alerta: “Só quem sabe de onde veio sabe para onde ir”. E que também me alerta para terminar, lembrando que não há respostas definitivas para as perguntas que me fiz lá no começo. Pode ser que algum dia eu encontre pistas em reportagens ou entrevistas deixadas por Sophia, que se foi em 2004, ou que Miguel tenha escrito algum depoimento ou venha a se ocupar da parte que lhe cabe nestas questões criadas na mente e no afeto de uma leitora distante. Sei, também, que isto não é tão significativo assim, pois o que importa é a leitura de ambas as obras, e que elas são essenciais porque me permitiram essas e tantas outras reflexões, em cada uma das pausas que o texto literário de qualidade propicia, enriquecendo o imaginário e a vida real do leitor.
1. Para satisfazer os mais curiosos, os outros álbuns ou conjuntos são: O Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro, poemas ditos por Diogo Dória; Poemas em Voz Alta, de Nuno Júdice, ditos por Natália Luiza, e Poemas, de Ruy Belo, ditos por Luís Miguel Cintra. Igualmente merecedores de escuta/leitura.
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