As muitas paixões de João Antônio

Tânia Piacentini


No início dos anos 80, decidi que o tema da minha dissertação de mestrado seria a literatura brasileira vista a partir dos depoimentos de escritores de ficção, tendo como eixos quatro situações com as quais todo autor está envolvido: as condições da atividade literária, a relação com os editores e com o mercado editorial, os espaços e meios de circulação das obras, e o significado do ato de escrever. Escolhi ficcionistas porque havia constatado uma maior edição de romances, novelas e, principalmente, contos na década de 70, o que possibilitaria um número maior de entrevistados. Escrevi cartas para 60 escritores e 12 deles atenderam ao meu pedido e responderam o questionário que lhes enviei. Um desses “doze apóstolos”

fonte: www.assis.unesp.br


foi João Antônio que, junto com Moacyr Scliar, Elias José, Antonio Torres, Deonísio da Silva, Tânia Faillace, Rubem Mauro Machado, Domingos Pelegrini Jr., Modesto Carone, Holdemar Menezes, Antonio Carlos Villaça e Herberto Salles, constituiu um time de tal qualidade que me permitiu elaborar um quadro realista e importante da literatura brasileira além dos textos, daquilo que está por trás dos livros (cf. Literatura: o universo brasileiro por trás dos livros. Florianópolis: Editora da UFSC, 1991.).
João Antonio me enviou material que já havia escrito para entrevistas e depoimentos a revistas e jornais e me autorizou utilizá-las: não tinha tempo para abordar todas as questões, disse, porque “vivia de direitos e tortos”, isto é, era um autor profissional que “vivia do que escrevia, com muita modéstia”, juntando aos direitos autorais os ‘tortos’, subprodutos da atividade literária, como conferências, trabalhos jornalísticos... E justificava: “No meu caso específico, o jornalismo tem servido também para a minha sobrevivência. Participei de algumas equipes de peso: Jornal do Brasil, O Globo, revista Realidade e tenho tido participação na chamada imprensa alternativa — Pasquim, Opinião, Movimento, Versus, etc... — a ponto de ter sido o criador da expressão ‘imprensa nanica’, hoje corrente. Há, na minha opinião, certo conflito entre as atividades não literárias e as de um verdadeiro escritor. A mão-de-obra e o tempo que o jornalismo de qualidade séria exige de um profissional são enormes, principalmente num país em que as condições de trabalho ainda são precárias. Pessoalmente, não tenho um ‘horário’ de trabalho. Nunca trabalho menos de nove horas por dia. E tenho uma renda mensal variável. (Detesto aqui a palavra renda: não haveria outro vocábulo para determinar o fruto pago pelo trabalho?)” .
Pois reencontrei João Antônio vivendo essa mesma situação até o fim da sua vida, até o fim de 1996, quando foi encontrado morto no apartamento que continuava alugando, em Copacabana: foram as centenas de cartas escritas ao longo de trinta anos que permitiram ao jornalista Mylton Severiano, o amigo Myltainho, companheiro de redações e da vida fora delas, resgatar para nós, os leitores de Malagueta, Perus e Bacanaço, Leão-de-chácara, Dedo-duro, Abraçado ao meu rancor, Dama do Encantado, as muitas faces de um escritor mais que apaixonado pela vida, pela gente pobre e sofrida do seu também amado país, pelas mulheres,


Paixão de João Antônio
,
de Mylton Severiano.
Casa Amarela, 2005.


pela música, e, principalmente, pela literatura, “a amante possessiva”. O livro Paixão de João Antônio é, mais que uma biografia, mais que o retrato de uma amizade, um depoimento em primeira pessoa: “mostrar cartas é quase tirar a roupa em público”, autorizava o missivista voraz que as anunciava como sua herança para os amigos.

Na primeira parte do livro, Myltainho sai em busca desse amigo, querendo reconstruir a vida do escritor com a ajuda das pessoas mais próximas a ele: o irmão, a primeira amiga leitora, os primeiros colegas de trabalho, o lançamento do primeiro livro, a mulher com quem se casou e mãe do seu único filho, as mulheres com quem viveu. São as versões, os olhares e sentimentos diversos de personagens que também ajudaram a escrever a história de vida de João Antônio, a vivida e a narrada através da saudade, da admiração, da estupefação, da mágoa, dos afetos que a memória registrou. Ficamos conhecendo a vida familiar, os interesses e os gostos do menino, os livros que lia para o irmão dez anos mais jovem, a música fazendo parte do cotidiano, a sinuca e os bares freqüentados pelo jovem que nunca deixou de flanar pelas ruas das cidades, principalmente da São Paulo onde se criou e trabalhou e do Rio para onde foi em busca do mar, os relacionamentos amorosos intensos e difíceis.
Mas é na segunda parte do livro, nas cartas agrupadas por assuntos e sem obrigação cronológica, em trechos ou integralmente, que o leitor é brindado com um verdadeiro painel da vida literária, cultural e política do Brasil de 1966 a 1996. Sem censura, João Antônio escancara para o amigo “sua alma e sua palma”: a vida diária, os afetos e desafetos, a realidade das redações dos jornais, as finanças, as mulheres — “sem amor não dá nem pra atravessar a rua” — as preferências literárias, a relação com os grandes nomes da crítica, a atração e a convivência íntima com a música, tanto a melhor popular quanto a clássica, as qualidades dos muitos amigos, a paixão pelos heróis populares do futebol — São Garrincha — e dos botequins, pelos personagens dos seus contos: o guardador de carros, Paulinho Perna-Torta, o jogador de sinuca, o chutador de tampinhas de garrafas e tantos outros. Percebemos o João Antônio ora humilde, ora extasiado, indignado, corajoso, ferido, sempre apaixonado, nunca indiferente. Conhecemos o escritor que lê outros escritores e os críticos literários — Machado, Guimarães Rosa, Graciliano, Lima Barreto, Antonio Cândido, Benedito Nunes, Alfredo Bosi — e fala deles com entusiasmo e admiração, revelando sua genealogia. O escritor que vive tanto a realidade do mundo editorial e cultural brasileiro como a do mundo político, que atravessa os anos da ditadura e a complicada passagem para a democracia, os governos de direita, em quem jamais vota, e os anos da esquerda, de quem também desconfia, no poder.
O livro de Myltainho nos faz pensar na vida do escritor, nos intelectuais, na literatura, na política, no Brasil e em nossa sociedade tão desigual. Mas acho que não basta lembrar, comparar e pensar, o melhor a fazer é seguir um conselho do próprio João Antônio: “Sou um caso indivisível, como qualquer infeliz que se mete a um trabalho solitário como o da literatura. Aliás, ninguém precisa me entender. Precisam é me ler”.
Sim, é preciso ler e reler os livros de João Antônio, que começam a ser reeditados nesses quase dez anos após a sua morte, pela Cosac Naif. Cinco deles já estão disponíveis: Malagueta, Perus e Bacanaço, Dedo-duro, Ó Copacabana, Abraçado ao meu rancor e Leão-de-chácara. Às livrarias, pois!




Dobras da Leitura
Ano VII - N.º 34 - jun. 2006
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