Um livro e muitas viagens

Tânia Piacentini



Um belo dia, há algum tempo atrás, a amiga bibliotecária chegou para o trabalho de catalogação dos livros da nossa Barca dos Livros, trazendo em mãos, para me mostrar, um exemplar que havia ganho de presente na França, quando lá morara. Eu fiquei extasiada, pois era uma edição linda, delicada e de extremo bom gosto, da obra Knulp, de Hermann Hesse. Bem mais que no texto ou no autor, me fixei na edição: 1949, em Montrouge, 28, Rue du Colonel Gillon, editada por Theo e Florence Schmied, ilustrada com singelas xilogravuras coloridas pelo mesmo Theo, tradução para o francês de Geneviève Maury.
O papel era velino Artois, o exemplar era o de nº 466, assinado a lápis pelos editores e o colofão informava ainda que do total de 1.000, os 100 primeiros livros haviam sido impressos em velino Lana para a Librairie Auguste Blaigot.
As ilustrações eram pequenos objetos, flores e outros singelos motivos emoldurando letras capitais que iniciavam parágrafos ou capítulos, em cores suaves. Tudo de uma beleza tão delicada quanto a história da amizade com o filho do casal de editores, que havia presenteado minha amiga com um trabalho de seus pais.
Fiquei com o livro emprestado por um tempo, lendo-o, admirando-o, e, cuidadosamente, para não lhe causar nenhum dano, não resisti e escaniei algumas ilustrações. Durante alguns dias mergulhei nos textos de Hermann Hesse que compõem o livro: além de “Knulp”, um “Conte” e “La fontaine du Cloître de Maulbronn”, compreendendo a harmonia que aquelas pessoas haviam conseguido compor entre textos literários, ilustrações, tipos, papel, capa, enfim, tudo que forma o conjunto livro. Três pequenas obras de um grande autor engrandecidas pela arte e ofício de profissionais mais que competentes, verdadeiros artistas. Tão encantada fiquei que antes de me separar do livro traduzi o “Conto”, uma forma, talvez, de prolongar o encanto que sentira.
Hoje, divido aqui a minha tradução, uma forma de convidar a todos para as outras viagens que fiz a partir daquele primeiro contato. Reencontrei o autor de Demian, O lobo da estepe e O colar das contas de vidro de uma forma mais real e mais digna de respeito humano e literário no site da Fondazione Hermann Hessse, de Montagnola. E encontrei informações, traços e exemplos da importância do trabalho artístico de Theo Schmied, assim como de seu antepassado François-Louis, em vários sites de obras raras, antiquários, galerias e na Biblioteca Nacional da França. Minha amiga tem, realmente, uma raridade em mãos, um livro de artista!
Mas nós podemos desfrutar um pouco da sua beleza [lendo aqui] o conto e depois viajando com os artistas que o fizeram. A internet está aí para isso, ao alcance de nossos dedos!




Dobras da Leitura
Ano VII - N.º 40 - dez. 2006
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