Felicidade num pedaço amansado do mundo
Tânia Piacentini
“Eu observo o comportamento da juventude, comparo com o que era no meu tempo. É sempre a mesma coisa passando-se em outra época, com outros ingredientes, mas, no fundo, é sempre o ser humano querendo amansar um pedaço do mundo para nele se instalar e
ser o mais feliz possível.”
Quem disse isso foi José J. Veiga, numa entrevista que encontrei na internet, onde fui em busca de informações que me atualizassem em relação a ele e sua obra. Minha curiosidade fora atiçada pelo encontro de livros num sebo em Joinville (SC) e a aquisição determinada pelo prazer que a memória me devolveu da leitura, feita há muito tempo, de Os cavalinhos de Platiplanto. Meu companheiro de visita e pesquisa, naquele mundo de livros e revistas usados, não conhecia o livro — o que nos propiciou uma boa conversa sobre oportunidades e contingências da leitura, formação e currículos literários em gerações e épocas diferentes. Estávamos fazendo o que eu chamaria de excursão aos sebos e livrarias, uma prática que adotamos nas cidades catarinenses onde vamos assessorar e animar a Maratona de Leitura.
Trata-se de um projeto do SESC de Santa Catarina, iniciado neste segundo semestre, dentro da programação cultural desenvolvida nas cidades em que há unidade da instituição. A população é convidada a participar, em três dias, à noite, da leitura de um livro emprestado pela biblioteca do SESC, em 4 horas de leitura em voz alta entremeada de observações, dúvidas, comentários levantados pelos assessores e por todos os participantes da roda. Autor e obra selecionados pela coordenação do projeto, divulgação prévia, atividade gratuita, várias duplas de assessores convidados viajam para diferentes cidades nos mesmos três dias. Foi assim que lemos Clarice Lispector (Laços de família e alguns contos de Felicidade clandestina) em Rio do Sul; As cidades invisíveis, de Ítalo Calvino, em Brusque; Contos selecionados, de Edgar Allan Poe, em Joinville. Nas próximas etapas, leremos contos de Machado de Assis, em Jaraguá do Sul, poemas de Manoel de Barros em Tubarão, e A metamorfose, de Kafka, aqui mesmo em Florianópolis, no SESC do Estreito. Outras duplas de assessores coordenam leituras desses livros, em outras cidades, fazendo circular as obras.
A resposta dos leitores a esta proposta tem sido gratificante, principalmente em termos de envolvimento. Acostumada há três anos a uma prática semelhante de leitura em grupo, as Quintas Literárias, agora na programação semanal da Biblioteca Barca dos Livros, sei que o número de pessoas que se permite vivenciar uma experiência assim não é grande: geralmente dez a quinze pessoas vêm ler conosco, por duas horas, uma obra selecionada de comum acordo, sob a coordenação de uma pessoa com mais intimidade com o livro e conhecimento do autor. Nas maratonas de quatro horas diárias do Sesc, temos tido grupos menores, o que não é de admirar, dado o ineditismo da proposta: o entusiasmo, a atenção e a dedicação dos leitores, a maioria dos quais nunca havia tido contato com as obras, compensa em qualidade os números quantitativos. E como leitura de literatura não se mede com régua e compasso, fica a esperança de que a semente caia em terreno fértil e que novos leitores se formem para ler sempre — sozinhos ou em grupo.
Com meu colega de dupla, reservamos um tempo durante o dia para procurar livrarias e sebos nas cidades que visitamos. Como as livrarias são pequenas, com as mesmas poucas ofertas de lançamentos e dos livros mais vendidos das revistas semanais, acaba sendo nos sebos que tenho tido bons momentos de garimpagem e boas surpresas, como esse reencontro com livros de José J. Veiga. Me lembro que li Os cavalinhos de Platiplanto, nos anos finais da década de 60, quando ainda na faculdade. Não porque fizesse parte do currículo a leitura de autores contemporâneos, mas havia toda uma formação literária e cultural paralela à acadêmica, estimulada pela presença de críticos nos suplementos literários de jornais. E esse livro e os que se seguiram do autor goiano que se radicou no Rio de Janeiro foram muito bem aceitos e deles muito se falou, tanto dos contos quanto dos romances.
Por muitos anos, fui leitora de José J. Veiga, mas não tinha mais meu exemplar desse seu livro de estréia, saudado como obra de realismo fantástico, ou realismo mágico, a exemplo dos livros anteriores e precursores desta “corrente” na literatura brasileira, os de Murilo Rubião.
Relendo-o agora, me enterneci com a história do menino que vê a promessa do avô de lhe dar um cavalinho de presente impossível de ser cumprida, por circunstâncias alheias à vontade daquele adulto tão cúmplice de seu afeto. O garoto, então, encontra uma forma de viabilizar seu desejo criando um universo paralelo, num sonho absolutamente surpreendente em beleza, cores, movimento e delicadeza. Tão envolvente é a passagem do mundo real da ficção para o mundo insólito da realidade onírica criada pelo personagem que a leitora de hoje se perguntou onde começava um e onde terminava o outro, querendo mesmo que ambos fossem um só. Tal é o encantamento que, no final, o menino se contenta com a possibilidade de poder “guardar aquele lugar perfeitinho como vi(u), para poder voltar lá quando quisesse, nem que fosse em pensamento”.
E eu fico feliz com a possibilidade de poder voltar ao meu livro quando eu quiser, agora que o reencontrei. Além dos cavalinhos, há outras belas histórias de meninos que vivem uma infância rural rica em acontecimentos fantásticos, maravilhosos mesmos, narrados numa linguagem bem brasileira, numa paisagem afetiva que José J. Veiga privilegia. Inspirada na citação dele lá do início, penso que a literatura é um dos melhores meios de ajudar a amansar um pedaço do mundo, nele se instalar e encontrar a felicidade...

|
|