A literatura
e a formação do professor leitor

Tânia Piacentini
Doutora em Educação (UNICAMP),
professora aposentada da UFSC,
diretora geral da Sociedade Amantes da Leitura.




Comecemos com uma história oriental: O poeta e o oleiro, que consta da antologia Os melhores contos, de Malba Tahan*:

Malba Tahan
Os melhores contos

Record, 17.ed. 2002
[pp. 93-6]
O caso da rua El-Kichani parecia, realmente, muito sério. Uma rixa inesperada surgira entre o jovem Fauzi, o poeta, e o oleiro Nagib. Os curiosos amontoavam-se junto à casa do oleiro. Cruzavam-se as interrogações: que foi? Como foi? Brigaram? Um guarda, para evitar que o tumulto se agravasse, resolveu levar os dois litigantes à presença do cádi, isto é, do juiz.
Esse juiz, homem íntegro e bondoso, interrogou, em primeiro lugar, o oleiro, que parecia o mais exaltado:
— Mas, afinal, meu amigo, de que se trata? Parece-me que foste agredido. É verdade?
— Sim, senhor juiz — confirmou o oleiro desabridamente —, fui agredido, em minha própria casa, por este poeta. Estava, como de costume, trabalhando em minha oficina, preparando dois novos vasos coloridos, que pretendia vender ao príncipe Rauzi, quando ouvi um ruído surdo e a seguir um baque. Percebi logo do que se tratava. O poeta Fauzi, que cruzava, naquela ocasião, a rua Bardauni, havia atirado violentamente uma pedra e partira um dos vasos — um vaso já pronto, que estava a secar junto à porta! Ora, senhor juiz, isso é um absurdo, um crime! Estou no meu direito; exijo uma indenização!
Voltou-se o juiz para o poeta e interpelou-o serenamente:
— Que tens a alegar, meu amigo? Como justificas o teu estranho proceder?
— Senhor cádi — respondeu o jovem —, o caso é muito simples e quero crer que a razão milita a meu favor. Há três dias passados voltava eu da mesquita quando, ao cruzar a rua Bardauni, em que mora o oleiro Nagib, percebi que ele declamava um dos meus poemas. Notei, com tristeza, que os versos estavam errados: o oleiro mutilava, isto é, quebrava os meus versos. Aproximei-me dele e, delicadamente, ensinei-lhe a forma certa, que ele repetiu sem grande dificuldade. No dia seguinte, ao passar novamente pelo mesmo lugar, ouvi ainda o oleiro a repetir os mesmos versos deturpados, isto é, com a forma erradíssima. Cheio de paciência, tornei a ensinar-lhe a forma correta, e pedi-lhe que não tornasse a mutilar os meus poemas. Hoje, finalmente, regressava eu do trabalho quando, ao passar pela rua Bardauni, percebi que o oleiro declamava a minha linda poesia, estropiando as rimas e mutilando vergonhosamente os versos. Não me contive. Apanhei de uma pedra e parti com ela um dos vasos. Como vê, senhor juiz, o meu procedimento, não passou, afinal, da represália de um poeta que se sente ferido em sua sensibilidade artística por um indivíduo grosseiro.
Ao ouvir as alegações do poeta, o juiz, dirigindo-se ao oleiro, declarou:
— Que esse caso, ó Nagib, sirva de lição para o futuro! Procura respeitar as obras alheias, a fim de que os outros artistas respeitem as tuas obras. Se te julgavas com o direito de quebrar o verso do poeta, achou-se também o poeta com o direito de quebrar o teu verso. Lembra-te de que o poeta é o oleiro da frase, ao passo que o bom oleiro é o poeta da cerâmica!
E a sentença do ilustre cádi foi a seguinte:
— Determino, pois, que o oleiro Nagib fabrique um novo vaso de linhas perfeitas e cores harmoniosas, no qual o poeta Fauzi escreverá um dos seus lindos versos. Esse vaso será vendido em leilão e a importância da venda repartida igualmente entre ambos.
A notícia do caso espalhou-se pela cidade. O oleiro vendeu muitos vasos com versos do poeta Fauzi e ambos se tornaram prósperos e ricos. Mas continuaram sempre bons amigos. O oleiro mostrava-se arrebatado ao ouvir os versos do poeta; encantava-se o poeta com os vasos admiráveis do oleiro.
Uassalã!
A partir desse conto, deliberadamente selecionado pela exemplaridade e ensinamento explícito, comuns na tradição oriental, eu poderia chamar minha fala de Não mutilemos a literatura ou Respeitemos a literatura. E o faço como um pedido a todos nós, adultos que, de uma forma ou de outra, atuamos como mediadores da leitura, entre o livro e um outro leitor, seja ele uma criança, um jovem, outro adulto, tenha ele a idade que tiver. E como o nosso tema é a formação do professor leitor, começo manifestando os limites de onde eu falo.
Em primeiro lugar, compreendo que todo professor é leitor: alfabetizado, escolarizado, formado ou em formação no ensino superior: todos lêem, leram e lerão: jornais, revistas, cartazes, outdoors, bulas, propagandas, apostilas, livros didáticos, livros técnicos, livros de ficção e de poesia, leitura integral ou parcelada em cópia xerocada ou impressa das inúmeras fontes existentes na internet (estou me referindo somente à palavra escrita). Lê-se para se instruir, lê-se para se informar, lê-se para se formar: estes são os motivos mais fortes que levam a maioria das pessoas à leitura, principalmente aquelas pessoas em idade escolar. Mas lê-se também para se distrair ou para passar o tempo, lê-se porque se gosta de uma história, de uma novela, de um romance, de um livro de poesia, de um escritor, de um tema, e isso em qualquer idade e circunstância. Ser leitor é, pois, um pré-requisito para a atuação do profissional da educação, em todos os níveis de ensino, assim como também o é para os demais profissionais liberais, sejam eles advogados, médicos, artistas, jornalistas, sociólogos, cientistas... Todos, em sua formação e em sua prática, têm que ser leitores para descobrir, estudar, apreciar, discutir, reinventar, desfrutar, negar ou aceitar as manifestações artísticas, científicas, religiosas, — enfim, as manifestações culturais de seus antepassados e de seus contemporâneos.
Mas o que me interessa enfatizar é a leitura literária, a leitura de livros de ficção e de poesia. Escritas para crianças, jovens e adultos, lidos por leitores de todas as idades, as obras literárias constituem a base cultural comum a todos, são os elos entre as pessoas leitoras, independentemente de formação específica e mesmo de nível de escolaridade. A leitura que une a imensa confraria dos leitores, aquela que é comum e disponível a todos é a leitura literária, pois é na literatura, em suas diferentes formas e desde os mais remotos tempos, que a humanidade tem repertoriado, reunido a sua própria história. Com a mais rica linguagem que foi capaz de criar, a humanidade tem explicado para todos e para cada um as nossas origens, as nossas crenças, os nossos mitos, as nossas alegrias e os nossos sofrimentos. E isso vai desde o primeiro "era uma vez", ouvido na infância, aos mais prestigiados clássicos da literatura universal, aos mais recentes poemas, contos ou romances publicados.
Pois bem, esse imenso patrimônio cultural, ao qual todos nós temos direito, continua sendo desigual e insatisfatoriamente distribuído, mesmo em uma das instituições a quem a sociedade delegou a tarefa de propagação da arte e da cultura, através do ensino. Mesmo na escola, a literatura é, muitas vezes, maltratada, desrespeitada, mutilada, quando não simplesmente desvalorizada pela sua ausência ou pouca visibilidade nas estantes das bibliotecas. Todos sabemos que a questão da leitura, de um modo geral, e da leitura literária em particular, extrapola os limites da instituição escolar e se insere em todos os âmbitos onde se dão as relações sócio-culturais. Em outras palavras, a leitura começa antes da vida escolar e é influenciada por outras instâncias e personagens, além da biblioteca escolar e do professor. Para ser breve, basta lembrar que criança aprende qualquer coisa imitando o adulto, e a formação do leitor começa pelo exemplo de um pai ou de uma mãe lendo ou contando histórias, de um adulto lendo um jornal, uma revista ou um livro, freqüentando bibliotecas e livrarias, valorizando a cultura escrita. A leitura é também uma questão econômica e política.
Na vida escolar, entretanto, os alunos recebem uma dose intensa e concentrada de influência literária, pois é aí que a literatura ganha o status de disciplina e a leitura torna-se obrigatória e, muitas vezes, é imposta. Daí a relevância da relação entre a escola e a literatura. O que eu entendo como respeito à literatura, como uma não mutilação da poesia e da ficção na e pela escola é, primordialmente, a compreensão da especificidade da palavra literária, da literatura como arte. Quem ensina — e quem aprende para depois ensinar — deve dar ao texto literário, ao livro literário, o tratamento especial que eles merecem. Tudo começa, aqui também, pela afetividade, pelo exemplo, pelo empenho do adulto em incentivar a relação criança-livro de uma maneira lúdica, preservando o espaço do encanto e da liberdade inerentes à boa literatura. Sem tratar a literatura como uma matéria a ser ensinada, como uma "historinha" que serve para ensinar um tema ou treinar bons hábitos, como um pretexto para inculcar lições de moral e ética. E aí aparece um primeiro paradoxo. Entre o texto com que comecei minha fala e estas colocações, pois a lenda oriental que selecionei é, num primeiríssimo plano de compreensão, uma obra-prima de ensinamento, de modelo a ser seguido. Mas só o é porque, no plano de fundo, o principal, ela foi bem escrita, desta maneira e com estas palavras, com pleno domínio da técnica de narração pelo autor que também conhece e respeita a tradição cultural milenar dos contos das terras das mil e uma noites. Desrespeitar a literatura seria permanecer num mero plano de exemplo, tipo "viram o que acontece?" Ou de verificação da compreensão mais imediata, a da resposta comum e única para a onipresente questão da "mensagem do texto". Seria simplesmente viajar com o enredo para os encantos e a astúcia dos narradores da grande família de Sherazade, sem penetrar no arcabouço do texto, na forma, nas imagens e palavras com que ele foi construído para nos envolver em sua magia. "A literatura é a linguagem carregada de sentido no mais alto grau possível", como nos ensinaram Ezra Pound e tantos outros poetas e ficcionistas.
Na preparação do professor para o exercício de seu papel de adulto mediador da leitura, todos devem ser incentivados a discutir suas concepções de leitura, a questionar a função da literatura na escola. Mas, principalmente, todos devem ser instigados e desafiados a ler muito e sempre as obras de ficção e poesia. Quando a literatura faz parte da nossa vida cotidiana, quando a elegemos parceira de nossos mais ricos momentos de lazer, de entretenimento e de aprendizagem, então somos capazes de praticar o paradoxo de uma antiescolarização da leitura no âmbito escolar. Para isso, o professor deve ser um amante da leitura, e, conseqüentemente, um batalhador incansável pela presença de livros e de atividades de leitura na biblioteca da escola e na do seu bairro, na biblioteca da sua cidade. Sem mudanças na mentalidade do professor e na sua prática, a formação de leitores continuará deficiente, perdendo-se uma das melhores oportunidades para "turbinar" o cérebro das crianças. Os neurologistas alertam para o fato de que as áreas cerebrais ligadas à linguagem e ao controle das emoções têm a oportunidade de maximizar seu potencial do nascimento aos 10 anos de idade. São eles também que corroboram a importância da leitura precoce como um dos maiores estimuladores desse potencial, incentivando os pais a contar histórias e a ler livros para os filhos antes mesmo que eles comecem a falar.
Ana Maria Machado resume, em seu texto Livros: o mundo numa rede encantada*, tudo o que eu gostaria de enfatizar nessa conversa sobre leitura: basta ouvi-la:
* Esta foi a mensagem que a escritora escreveu em 1993 em comemoração ao Dia Internacional do Livro Infantil (2 de abril, aniversário de Hans Christian Andersen), divulgada em mais de 60 países, através da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), seção brasileira do International Board on Books for Young People (IBBY).
Eu era pequena, não sei bem que idade tinha.
Só sei que tinha altura suficiente para poder ficar de pé em frente à escrivaninha de meu pai, apoiar nela os braços e, sobre eles, o queixo. Bem grande, diante dos meus olhos, ficava uma estatueta de bronze: um cavaleiro magro de lança na mão, montado num cavalo esquelético, seguido por um burrico onde ia encarapitado um sujeito gorducho segurando um chapéu na ponta do braço estendido, como quem dá vivas.
Respondendo a minha pergunta, meu pai me apresentou os dois:
— Dom Quixote e Sancho Pança.
Quis saber quem eram, onde moravam. Aprendi que eram espanhóis e moravam há séculos numa casa encantada: um livro. Em seguida, meu pai interrompeu o que estava fazendo, foi até a prateleira, pegou um livrão e começou a me mostrar as figuras e contar a história daqueles dois. Numa das ilustrações, Dom Quixote estava cercado de livros.
— E dentro desses aí, mora quem? — quis saber.
Pela resposta, comecei a perceber que havia livro de todo tipo e dentro deles morava o infinito. A partir daí, pelas mãos de meus pais, fui conhecendo alguns deles, como Robinson Crusoé em sua ilha, Gulliver em Lilliput, Robin Hood em sua floresta. E descobri que as fadas, princesas, gigantes e gênios, reis e bruxas, os três porquinhos e os sete anões, o patinho feio e o lobo mau, todos eles velhos conhecidos meus das histórias que eu ouvia, também moravam em livros.
Mais tarde, quando aprendi a ler, quem passou a morar nos livros fui eu. Conheci personagens de contos populares do mundo inteiro, em coleções que me fizeram percorrer da China à Irlanda, da Rússia à Grécia. Me embrenhei de tal maneira nos livros de Monteiro Lobato, que posso dizer que me mudei durante uns tempos para o sítio do Pica-pau Amarelo, era lá que eu vivia. Era um território livre e sem fronteiras. Com a mesma facilidade pude morar no Mississipi com Tom e Huck, cavalguei pelos bosques da França com D'Artagnan, me perdi no mercado de Bagdá com Aladim, voei para a Terra do Nunca com Peter Pan, sobrevoei a Suécia montada num ganso com Nils, me meti pela toca de um coelho com Alice, fui engolida por uma baleia com Pinóquio, persegui Moby Dick com o capitão Ahab, naveguei pelos mares com o Capitão Blood, procurei tesouros com Long John Silver, dei a volta ao mundo com Phileas Fogg, fiquei muito tempo na China com Marco Pólo, vivi na África com Tarzan, no alto das montanhas com Heidi e numa casinha na campina com a família Ingall, fui menina de rua em Londres com Oliver Twist e com Cosette e os miseráveis, escapei de um incêndio com Jane Eyre, fui à escola de Cuore com Enrico e Garrone, segui um santo homem na Índia com Kim, sonhei em ser escritora com minha querida Jô Marsh, fiz parte do grupo dos Capitães da Areia com Pedro Bala pelas ladeiras da Bahia... e a partir daí fui cada vez mais lendo livros de gente grande.
Assim mesmo. Sem fronteiras geográficas nem faixa etária, tudo comunicando com tudo, interligando-se por todos os lados, numa rede de casas encantadas.
Até que, de tanto conhecer tantos mundos, fui criando os meus. E comecei a dividir com os outros, nos livros que faço, tudo o que mora dentro de mim.
Creio que qualquer um de nós se sentiria orgulhoso e recompensado, se fosse lembrado como o adulto que possibilitou a um leitor em formação o encontro com qualquer um desses livros, o encontro com o mundo mágico literário. E termino com uma outra citação, de um grande escritor que também foi professor de literatura, Jorge Luis Borges: "o que faz um professor é buscar amigos para os estudantes. O fato de que sejam contemporâneos, de que estejam mortos há séculos, de que pertençam a esta ou àquela região, isso é o de menos. O importante é revelar a beleza e só se pode revelar a beleza que alguém sentiu".
O professor que sentiu a beleza de uma história literária e que vivencia a magia da leitura saberá compartilhar suas amizades e fazer novos amigos.
Dobras da Leitura
Ano V - N.º 216 - jul.ago. 2004
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