Boa companhia à memória, os olhos, o olhar:
que a viagem da leitura do Sr. Júlio Meksenas nos é revelada em palavras
e imagens, especialmente selecionadas pela autora para a publicação
do presente artigo.
Dobras da Leitura agradece a fantástica colaboração.
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A história de um leitor incomum
Tânia Piacentini
Autora de Literatura: o universo brasileiro por trás dos livros
Mestre e Doutora em Educação (UNICAMP), professora aposentada da UFSC.
Conheci o protagonista desta história quando coordenava um projeto para a criação de uma biblioteca infanto-juvenil em um centro cultural em Florianópolis. Eu havia solicitado aos amantes da leitura a doação de livros para o acervo inicial e o sr. Júlio Meksenas me telefonou, oferecendo livros, jornais e revistas. Expliquei-lhe as necessidades e interesses específicos do projeto e concordamos que o material de que ele dispunha era inadequado para as características daquela biblioteca. Mas isto não invalidava o meu interesse em conhecer o acervo: ele me falava de coleções de material impresso a partir da década de 30, com tal carinho e entusiasmo que percebi estar falando com um leitor voraz e apaixonado.
Algum tempo depois fui visitá-lo e aquele senhor de 77 anos tinha uma história de leitura digna de registro. Foi o que fiz, gravando as lembranças de sua formação como leitor e colecionador, enquanto ele mostrava parte do que ainda conserva após duas ou três grandes seleções que diminuíram sua biblioteca. Mas isso após convencê-lo de que a sua trajetória é especial exatamente por fugir ao padrão do leitor intelectual e aos símbolos e estereótipos do que se convencionou valorizar como marcas de cultura.
Seu Júlio, viciado em leitura
O menino Julius tinha dois anos e meio quando seus pais vieram da Lituânia, acompanhados de todos os cinco irmãos do pai, em 1927, também para "fazer a América". A família fez o mesmo caminho de muitos: uma fazenda no interior de São Paulo, onde não se adaptaram por serem "gente de cidade" em seu país, com profissões de marceneiro, de mecânico, de alfaiate... Mudaram-se para a cidade, para Vila Prudente, na época bairro novo nos limites da São Paulo que se expandia. O pai deixou de ser alfaiate e foi trabalhar na Light e, por volta dos sete anos, o filho único foi matriculado numa escola no próprio bairro:
"Era uma salinha pequena, se tinha vinte alunos era muito. Eu aprendi a ler na escola, em português. Mas eu freqüentava duas escolas, pois de manhã era a escola brasileira, tudo em português, e à tarde era a lituana. A colônia lituana na cidade era grande e já comportava manter uma escola própria".
Seu Júlio (o nome de registro, Julius, ficou só para os documentos) lembra que não havia biblioteca na escola brasileira e que todo o material didático da outra escola, inclusive os livros de histórias e contos, vinham da Lituânia. Ressalva, porém, que seu interesse pela leitura foi despertado na grande casa em que também moravam os tios, cada pequena família num quarto, como era comum nos bairros dos imigrantes, como Bom Retiro, para onde foram depois.
"Meus tios e meus pais gostavam de ler, meus tios eram dados à leitura e em 1934, 35, já compravam as revistas da época, a Eu sei tudo, A Scena Muda,
liam muitos livros também. No tempo de escola eu até li um livro de Erasmo Braga, que tinha histórias mitológicas, como a de Teseu, poesia de Gonçalves Dias... Eu já morava perto do Jardim da Luz, onde havia uma biblioteca ambulante e pude ler aqueles livrinhos pequenos, cartonados, o Ali Babá e os 40 ladrões, Os Três Porquinhos, os contos infantis tradicionais, as histórias de fadas. E havia também a promoção do Café Jardim, para cada quilo de café que se comprava ganhava-se um cupom e um determinado número de cupons dava direito aos livros da coleção Terra Mar e Ar, livros de aventuras para jovens. Mas eu só estudei até o quarto ano primário e foi em casa mesmo que eu me 'viciei' em leitura,
por volta dos meus 12, 13 anos eu comecei a me interessar pelas revistas que meus tios compravam e tudo que aparecia eu lia também."
A Eu sei tudo era uma espécie de enciclopédia popular mensal, da Companhia Editora Americana, com diversas áreas de interesse - "ciência ao alcance de todos, páginas de arte, novidades e invenções, conhecimentos úteis ou curiosos, esportes, contos e aventuras, percorrendo o mundo, romances." - muitas ilustrações e fotos, anúncios a cores e em preto e branco, um variado leque aos olhos do ávido leitor.
Já A Scena Muda era considerada a mais antiga e completa revista sobre cinema do Brasil: "Lêr A SCENA MUDA é ter o cinematographo em casa", diz um anúncio de um exemplar de 1930.
Aliás, o cinema foi outra vivência importante na vida do garoto do Bom Retiro, que garantia duas sessões por semana pregando cartazes nas tabuletas que anunciavam os filmes em diferentes pontos do bairro, em troca de entradas. Os meninos da rua do cinema tinham preferência para executar também a tarefa de varrer a sala após a matinê dos domingos e foi assistindo aos filmes que então não eram dublados que seu Júlio aprendeu suficientemente o inglês para ler, mais tarde, a National Geographic Magazine, que comprava porque gostava muito de viagens.
O jovem leitor passa a comprar seu material de leitura e a fazer suas próprias coleções a partir dos 14 anos, quando trabalhou, em 1938, como lavador de pratos num hotel de uma família de italianos, na rua Brigadeiro Tobias. Aí, sua tendência política socialista, criada na família, começa a amadurecer influenciada por um cozinheiro português anti-salazarista que lia A Gazeta todos os dias, naquele intervalo entre as duas e as quatro horas da tarde quando, cozinha já limpa, espera-se a hora de fazer o jantar. Eram os anos da Guerra Civil Espanhola e o adulto explicava ao jovem a situação política da Europa onde a Segunda Guerra Mundial começava a se delinear.
Um ano no hotel, depois o emprego como aprendiz de torneiro mecânico numa oficina perto de casa, e mais tarde a profissionalização como mecânico: a vida profissional estava definida.
E a leitura sempre presente, a banca de revistas era um lugar da sociabilidade masculina: amigos e conhecidos paravam, liam e comentavam política e cinema, ele adquiria a revista Contos Magazine, de aventuras, havia o álbum e as figurinhas duplas, a troca de dois gibis lidos por um novo.
"No jornaleiro eu também encontrava números antigos da Eu sei tudo que meus tios não tinham comprado, eu adorava aquele tipo de enciclopédia e quando o assunto de história era os gregos ou os romanos eu ficava encantado. Mais tarde, já adulto, com um pouco mais de dinheiro, eu ia muito aos sebos, e nas livrarias, todas no centro, como a Freitas Bastos, eu procurava a banca de saldos novos, e me lembro que cheguei a comprar 5 volumes da História da Civilização. Outro, em 1948, o primeiro volume da História Universal que me deixou com os bolsos limpos... mas eu não resisti quando vi aquele volumão tratando desde o homem das cavernas. Foi assim que comecei a colecionar os livros, comprando os que me interessavam, de segunda mão, mais baratos".
Importante também foi a biblioteca do sindicato que emprestava aos filiados, gratuitamente, os muitos livros que a fome de ler daquele leitor eclético e curioso devorava. A biblioteca pessoal ia aumentando, mesmo depois do casamento com dona Alda, também de origem lituana e a quem hoje "concede espaço" para a máquina de costura, no quarto do apartamento onde estão as estantes com os livros, revistas, álbuns de recortes colecionados dos jornais. Seu Júlio sempre escolheu as leituras movido por insaciável curiosidade, o que o fez transitar por várias áreas: astronomia, arqueologia, antropologia, história antiga ou recente, política, ciências naturais, geologia, e também literatura, claro, os clássicos e os best-sellers da época, como Cronin e Humberto de Campos. O Tesouro da Juventude era uma coleção cara e ele a lia na casa de um amigo, colecionou durante anos as
Seleções de Readers Digest, mas foi pelos jornais que burilou seu gosto e elegeu seus guias, políticos e literários.
Através dos suplementos da indispensável Folha de São Paulo dos domingos tornou-se leitor de colunistas e críticos como Tristão de Athaíde e Paulo Francis, a quem perdoa as críticas acerbas à esquerda porque também apontava acidamente as mazelas do capitalismo e da política norte-americana. Leitor independente, também variava de jornal segundo a cobertura maior ou menor das notícias internacionais, por exemplo, e chegou a ter artigos selecionados de 5 jornais: além da Folha, O Estado de São Paulo, O Tempo, Diário de São Paulo, Tribuna da Imprensa. Guardou muitos números do Jornal de Debates, cujo lema "Não concordo com uma só palavra do que dizeis, mas defenderei até a morte o vosso direito de dizê-las" fazia jus, diz, à liberdade de opinião que caracterizava aquele jornal dos anos 50.
Também colecionou O Pasquim na década de 70, assim como o Opinião, jornais já "do tempo dos filhos".
Mas as guerras foram o tema predileto. Ele colecionou livros e jornais que trataram do assunto desde a Antigüidade e ainda guarda as obras essenciais e inseparáveis, as que passaram pelo crivo rigoroso da importância afetiva, diante do dilema de diminuir a biblioteca. Filhos já casados selecionaram o que lhes interessava, uma neta ganhou a coleção do Sítio do Pica-pau Amarelo, de Monteiro Lobato, ilustrada por Belmonte, doou livros para escolas, vendeu revistas antigas -- Tarzan, Fantasma -- para adultos em busca das leituras da juventude. Desfez-se, enfim, e com pesar, de muita coisa antes de se mudar para a Ilha de Santa Catarina por causa do filho mais novo que veio lecionar na Universidade Federal.
Um dos orgulhos deste leitor e colecionador contumaz é contar que quando os meninos estavam na escola primária ou secundária não precisavam fazer pesquisa para os trabalhos na biblioteca escolar: ele selecionava os livros relativos ao tema, abria vários jornais e revistas e dizia-lhes que lessem tudo e fizessem uma síntese pessoal. Além, é claro, de emprestar-lhes os seus livros de Júlio Verne ou outros que quisessem ler.
Por tudo isso, é possível, sim, ter uma idéia do quanto lhe foi difícil selecionar somente aquilo que considerou ótimo em sua eclética biblioteca. Mas a relação forte e apaixonada se mantém, pois ele continua preocupado com o destino desses objetos tão frágeis e tão valiosos que o acompanham há tanto tempo.
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