Dickens em Bougainville
Tânia Piacentini
Eu nunca tinha ouvido falar na Ilha de Bougainville nem no bloqueio do governo de Papua–Nova Guiné à ilha, na passada e ainda recente década de 1990. Isto eu aprendi na orelha do livro de Lloyd Jones, O Sr. Pip. É claro que fui aos mapas, à internet, e durante e após a leitura me choquei com o fato de não ter tomado sequer conhecimento da guerra que se travou naquele pedaço da Oceania, numa das ilhas do arquipélago Salomão. De quantos conflitos e guerras os interesses políticos e econômicos nos isolam neste vasto mundo que se quer globalizado! Mas Lloyd Jones é jornalista, mora na Nova Zelândia e cobriu o bloqueio: o que ele viu e sentiu certamente estão no pano de fundo desta bela e forte história onde o livro, a leitura e o poder da imaginação são personagens importantíssimos.
|
Já a capa da edição brasileira é muito atraente para qualquer pessoa que gosta de ler: um livro aberto na areia da praia, uma página sendo virada pela brisa, ondas quebrando calmamente e o azul esverdeado do mar juntando-se ao azul do céu no horizonte. O texto da contracapa, entre aspas, reforça a atração, convidando o leitor a abrir o livro para continuar a leitura.
A narrativa é feita por Matilda, uma adolescente de 14 anos que nos situa no tempo do romance contando fatos marcantes da vida pregressa na ilha, relacionando-os com sua vida pessoal e sua idade, fazendo também contas para saber quando ela e seus colegas conheceriam de verdade o sr. Dickens:
“Estávamos em 10 de dezembro de 1991. Fiz um cálculo rápido – nós só conheceríamos o sr. Dickens no dia 6 de fevereiro de 1992”.
Mas este é o final do segundo capítulo da obra, quando as crianças voltam à escola porque Olho Arregalado, o único branco que havia ficado na ilha sitiada, iria dar aula para as crianças e assim seria reaberta a escola, 86 dias depois. Os professores haviam partido no último barco que levou os brancos empregados da companhia que explorava as minas de cobre, antes da chegada dos soldados que iriam combater os rebeldes nativos. No primeiro capítulo, a narradora já nos apresentara Olho Arregalado, contara sua relação com a esposa negra e com os outros adultos, falara dos hábitos daquele homem, “fonte de mistério” para as crianças que haviam conhecido poucos brancos.
Assumindo o lugar de professor, Olho Arregalado passa a ser o sr. Watts, pois conquista os alunos com sua postura franca, a sinceridade com que apresenta os limites do seu conhecimento, seu comprometimento a fazer o melhor possível. O inusitado das colocações e o comportamento gentil e firme daquele professor improvisado surpreende as crianças:
“- Eu não tinha certeza de que vocês viriam – ele disse. – Vou ser honesto com vocês. Não tenho nenhuma sabedoria, nenhuma mesmo. A coisa mais verdadeira que posso dizer a vocês é que o que quer que tenhamos entre nós é tudo o que temos. Ah, e, é claro, o sr. Dickens”.
Quem seria esse senhor Dickens as crianças só saberiam no dia seguinte, quando voltaram, curiosas e cheias de pedidos dos pais a serem feitos àquele outro branco que ninguém conhecia. Então o sr. Watts simplesmente começou a ler:
“Nunca tinham lido para mim em inglês antes. Nem para os outros. Não tínhamos livros em casa e, antes do bloqueio, nossos únicos livros tinham vindo de Moresby e eram escritos em pídgin. Quando o sr. Watts começou a ler, ficamos quietos. Aquele era um som novo. Ele leu devagar para que ouvíssemos a forma de cada palavra.
- ‘Como o meu sobrenome era Pirrip e o meu nome Philip, minha língua de criança não conseguia dizer nada mais longo ou explícito do que Pip. Então eu chamei a mim mesmo de Pip e passei a ser chamado de Pip’.
Não tinha havido nenhum aviso do sr. Watts. Ele simplesmente começou a ler. (...) Então, quando ouvi o sr. Watts falar, achei que ele estava falando de si mesmo. Que ele era Pip. Foi só quando ele começou a caminhar por entre as carteiras que vi o livro em suas mãos”.
O impacto sobre os alunos é grande:
“Ele continuou a ler e nós, a escutar. Levou algum tempo para parar, mas, quando ergueu os olhos, nós estávamos paralisados pelo silêncio. O fluxo de palavras tinha terminado. Vagarosamente, voltamos aos nossos corpos e às nossas vidas.
O sr. Watts fechou o livro e ergueu-o numa das mãos, como um sacerdote. Nós o vimos sorrir de uma extremidade da sala até a outra.
- Este foi o primeiro capítulo de Grandes esperanças, que, aliás, é o maior romance do maior escritor inglês do século dezenove, Charles Dickens.
Nós nos sentimos uns bobos por termos pensado que seríamos apresentados a alguém com aquele mesmo nome. Talvez o sr. Watts tenha imaginado o que estava passando na nossa cabeça.
- Quando alguém lê a obra de um grande escritor – ele disse -, está conhecendo aquela pessoa. Então vocês podem dizer que foram apresentados ao sr. Dickens por escrito, por assim dizer. Mas vocês ainda não o conhecem”.
A prova de que a tática do professor improvisado surtiu efeito não demora a aparecer:
“- Quando vamos poder dizer que conhecemos o sr. Dickens?
O sr. Watts encostou dois dedos no queixo. Nós o vimos refletir por alguns momentos.
- Esta é uma pergunta muito boa, Mabel. De fato, minha primeira resposta é que você me faz uma pergunta para a qual não existe resposta. Mas vou dar meu melhor palpite. Alguns de vocês vão conhecer o sr. Dickens quando terminarmos o livro. O livro tem cinqüenta e nove capítulos. Se lermos um capítulo por dia, serão cinqüenta e nove dias”.
E a partir daí, Pip passa a ser uma figura familiar, um novo amigo para Matilda e seus colegas, e a história dele algo significativo para ajudar a enfrentar o escuro das noites mais assustadoras por causa das atrocidades da guerra:
“O sr. Watts nos dera um outro pedaço do mundo. Descobri que podia ir para lá sempre que quisesse. E, o que era melhor, podia escolher qualquer momento da história. Não que eu considerasse o que estávamos ouvindo como sendo uma história. Não. Eu estava ouvindo alguém falando sobre si mesmo e sobre tudo o que tinha acontecido. Eu ainda estava descobrindo os meus trechos favoritos. Pip no cemitério cercado pelas lápides dos pais mortos e dos cinco irmãos mortos era um dos mais cotados. Sabíamos o que era a morte – tínhamos visto todos aqueles bebês enterrados na montanha. Eu e Pip tínhamos mais uma coisa em comum: eu tinha onze anos quando o meu pai partiu, então nenhum de nós conheceu realmente o pai”.
A vida de Matilda é alterada, a influência do livro se faz sentir também na relação dela com a mãe que se sente ameaçada pelos novos conhecimentos da filha:
“Mas essa foi a última vez em que pediu para ouvir um episódio de Grandes esperanças. E eu culpo ‘uma manhã geada’. Embora ela não tenha dito, sei que achou que eu estava me exibindo e que estava abocanhando um pedaço do mundo maior do que ela poderia lidar com expressões como ‘uma manhã geada’. Ela não queria me encorajar fazendo perguntas. Ela não queria que eu entrasse muito fundo nesse outro mundo. Tinha medo de perder sua Matilda para a Inglaterra vitoriana”.
e pela figura e papel do sr. Watts encarnando o opositor, o inimigo, no confronto entre os mundos e as culturas diversas:
“No escuro, eu ouvi minha mãe cerrar os dentes. Ela achava que tinha resumido o sr. Watts. Não podia ver o que nós, crianças, tínhamos conseguido ver: um homem bondoso. E ela só via um homem branco. E homens brancos tinham roubado seu marido e meu pai. Homens brancos eram culpados pelas minas e pelo bloqueio. Um homem branco tinha dado nome à nossa ilha. Homens brancos tinham dado o meu nome. Nessa altura, já estava claro que o mundo branco nos havia esquecido”.
E a guerra que se vislumbrava de longe chega à aldeia, e com ela as atrocidades se fazem presentes. A desconfiança, as dúvidas, os medos, a traição, o horror, a crueldade, e as mortes, muitas mortes. O sr. Watts é o personagem principal do drama, personificando o senhor Pip procurado pelos soldados do governo, e também ameaçado pelos rebeldes que escutam a história de sua vida em sete noites de narração: é o esclarecimento de muitos dos “mistérios” de Olho Arregalado e de sua esposa Grace.
Impossível resumir a história: qualquer tentativa a empobreceria demasiado, pois grande parte da beleza e força desse livro está no estilo do autor, em sua capacidade de escrever as memórias de Matilda com a linguagem e os sentimentos que uma adolescente pode usar e exprimir, além de muitos outros méritos. Deixo o convite para a leitura, ainda me interrogando sobre os limites da literatura, sobre o poder da arte.
Mas antes faço um desvio para um aspecto da vida de Dickens, contado por Alberto Manguel no capítulo “O autor como leitor”, de Uma história da leitura (p.288):
“Em toda a Europa, o século XIX foi a idade de ouro da leitura pelos autores. Na Inglaterra, a estrela foi Charles Dickens. Sempre interessado em teatro amador, Dickens (...) usava o talento histriônico nas leituras das próprias obras. Essas leituras eram de dois tipos: para os amigos, a fim de polir o texto final e avaliar o efeito de sua ficção sobre o público, e leituras públicas, apresentações pelas quais ficaria famoso mais tarde. Escrevendo à esposa, Catarina, sobre a leitura de sua segunda história de Natal, O carrilhão, mostrou-se exultante: ‘Se tivesse visto Macready (...) ontem à noite – soluçando e chorando escancaradamente no sofá enquanto eu lia – você teria sentido (como eu senti) o que significa ter Poder’. (...) A Lady Blessington, em relação à leitura de O carrilhão, Dickens escreveu: ‘Tenho grande esperança de que farei a senhora chorar amargamente’”.
Acho que ele gostaria de saber do poder de sua obra sobre autores e leitores do século XX e XXI: estou procurando Grandes esperanças para ler. Afinal, não só personagens migram...
P. S. Louvável também a tradução de Léa Viveiros de Castro, que não teve medo do uso da língua padrão, provando que é possível escrever bem e adequadamente sem concessões bobinhas!

|
|