Cultura também se fofoca.
Tânia Piacentini

García-Márquez conta alguma coisa para um Franz Kafka atento, mas com um olhar um pouco apreensivo. Ou seria dubitativo? Afinal, esse colombiano inventa cada história... Uma cidade onde só chove e uma neta passeia com os ossinhos da vovó guardados no armário de roupas; chama de feliz um verão como o da pobre senhora Forbes; deixa colocarem um velho muito velho com asas no galinheiro... É um pouco demais até para esse tcheco que construiu castelos, sofreu processos e veredictos, e metamorfoseou em barata o pobre S... E ainda dizem que o realismo de um é mais fantástico que o do outro!
É melhor escutar a conversa aqui do lado, esse velho argentino parece mais confiável... Mas não é que o sedutor está jogando charme pra cima da Clarice Lispector, dizendo que gosta mais de G. H. do que do S. e que havia encontrado muitos rastros dessa e de outras paixões no seu Livro de Areia? O papo entre os dois promete, Clarice parece disposta a ouvir Borges, e eles acabam trocando presentes: um História universal da infâmia por um Laços de família.
Ali ao lado um Brecht gaiato se espanta com o sonho que Shakespeare teve numa noite de verão e lhe fala da predileção por Hamlet e Lear, sem esquecer Ofélia e Desdêmona... E conversam sobre novos tempos no teatro, com Willian muito interessado nestes tais distanciamento e estranhamento que o alemão criou e utiliza no Berliner Ensemble, em peças como Mãe Coragem e A vida de Galileu. Pelo jeito, assunto não vai faltar.
E o que será que o Mário de Andrade e a Simone de Beauvoir estão cochichando, nesta conversa ao pé do ouvido? Talvez a francesa se interesse por Macunaíma, ai que preguiça! Ou queira saber sobre a imensa pesquisa que ele fez sobre a música brasileira, a de raiz bem popular, e aprender a tocar um alaúde. Afinal, nem mesmo nas Memórias de uma moça bem-comportada, Amar é sempre um Verbo intransitivo!
Ih, esses dois senhores tão elegantes, com seus belos chapéus e seus óculos redondos, aparentemente tão calmos e recatados, não me enganam: eles são um, dois, muitos! Num vai e vem, Fernando Pessoa atravessa o Mar Português entoando Ode Marítima e depois se metamorfoseia, se multiplica em Alberto, Ricardo e Álvaro, e em mais um outro ainda, vivem em nós inúmeros, diz. Joyce aquiesce e conta como lhe deram trabalho os Dublinenses, e como foi longo o dia de Ulisses... “Ainda bem que em Paris eu encontrei Adrienne Monnier e Sylvia Beach, conhece?”.
“Não, meu caro, nomear, não, nada é nomeável... Dizer, não, nada é dizível...” intervem vez ou outra Beckett, nas poucas vezes em que o caudaloso Proust faz uma pausa Em sua longa busca do tempo perdido. “São palavras, não há senão isso, mas reconheço que é preciso continuar, Esperando Godot...”.
E esses outros dois, logo ali abaixo, será que Hemingway sabe que nem só Paris é uma festa, que na Bahia há muitas, melhores e maiores até que na também bela e negra Havana? Não tem problema, Jorge Amado lhe ensina, pois de mar, pescadores, cana de açucar, política, Gabriela, cravo e canela e outros temperos ele entende muito bem...
Não conheço ainda Doris Lessing, a dama a quem Marguerite Duras confidencia reminiscências de sua vida na Indochina, coisas sobre O amante, O marinheiro de Gibraltar, seus filmes, as peças e cenários para o teatro. Sim, Doris, já me falaram muito bem de teus livros, das tuas memórias... Tuas obras estão na prateleira da minha biblioteca ideal, aquela onde ficam os livros que pretendo ler porque suponho que podem vir a contar em minha vida. Que história de biblioteca ideal é essa? Ah, isto quem me ensinou foi um colega teu, um dos meus autores prediletos, o Ítalo Calvino, que não está nessa ciranda. Deixa pra lá, outra hora eu falo nele.
Mas e o Sartre, com essa cara de safado? Pulou O muro, lavou As mãos sujas, deixou O ser e o nada de lado e, sem Náusea, cochicha que O inferno são os outros, convidando Gabriel: “Vamos para Macondo?”
__ “Vou, mas só depois de assinar o LEIA! Com ele, não há um só dia, nem Cem anos de solidão!”





* Uma homenagem, saudosa, ao LEIA, Um Jornal de Livros, Autores e Idéias. O cartaz está emoldurado na parede de meu escritório-biblioteca e muitos exemplares, encadernados, me trazem de volta pessoas, artigos, fotos e fatos, discussões, teorias e fofocas, vidas, a vida literária do país e do mundo. Retrato ainda vívido e substancial da cultura do fim da década de 70 e grande parte dos anos 80. Salve os Caios, o Graco Prado e o Fernando Abreu! Saudades também da Brasiliense e da Joruês, palmas para os editores Alberto Dines, Cláudio Abramo, outro Caio, o Túlio Costa e tantos outros, como Ricardo, que assina esse cartaz, impresso a cores. Louvor a todos os que fizeram o LEIA!




Dobras da Leitura
Ano VII - N.º 30 - fev. 2006
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