Cartografia de leitura:
os mapas de Ricardo Piglia
Tânia Piacentini


Meu primeiro contato com a produção literária do escritor argentino Ricardo Piglia foi quando me pediram para traduzir seu ensaio A Heráldica de Borges, sobre a genealogia familiar e literária de Jorge Luis Borges, que foi publicado no Folhetim (Folha de São Paulo, 19/08/84). Claro que desde então passei a ler o que ele publicou, os livros de contos A invasão e Nome falso, os romances Respiração artificial, Cidade ausente e Dinheiro queimado, os ensaios de O laboratório de escritor e, mais recentemente, aqueles reunidos em Formas breves. Quando o conheci pessoalmente, me apresentaram como sendo a sua primeira tradutora para o português, o que, se for verdade, muito me orgulharia, dada a qualidade e a importância de seu trabalho. Mas também
contribuíram para esta afeição literária a simplicidade e a simpatia pessoais de Piglia no encontro da Abralic, em Minas Gerais: ele, que havia feito a palestra de abertura do encontro, me dizia, entusiasmado com as histórias e os depoimentos dos três senhores bibliófilos - me lembro que um era José Mindlin – que aquela mesa é que merecia ter sido destacada para a abertura do congresso. Tudo isto me volta à lembrança por causa do seu livro O último leitor1, em que traça os mapas de algumas de suas leituras, permitindo que nós, os seus leitores, decalquemos seus percursos, refazendo suas viagens pelas obras de Borges, Kafka, Poe, Joyce, Guevara, Tolstoi e tantos outros que aparecem nos desvios e nos encontros que as aproximações literárias possibilitam.
Piglia parte de uma pergunta capital: o que é um leitor, procurando “as figurações do leitor na literatura, as representações imaginárias da arte de ler na ficção, tentando fazer uma história imaginária dos leitores, e não uma história da leitura. Não nos perguntaremos tanto o que é ler, como quem é aquele que lê (onde está lendo, para quê, em que condições, qual é a sua história)”
As situações de leitura, com suas relações de propriedade e seus modos de apropriação, o autor vai buscar primeiro no leitor inventado por Borges:
“o herói que se instala no espaço que se abre entre a letra e a vida”, “alguém perdido numa biblioteca, alguém que passa de um livro para outro, que lê uma série de livros e não um livro isolado. Um leitor disperso na fluidez e no rastreamento e que tem todos os volumes a sua disposição. Vai atrás de nomes, fontes e alusões, passa de uma citação para outra, de uma referência para outra”.
Nem bem desdobrado este primeiro mapa, eu, leitora da leitura de Piglia, fiz uma pausa no caminho que ele começava a traçar e busquei “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, movida pela afirmação categórica: “o conto de Borges que define sua obra”. E de um livro a outro, de um conto para outro conto, fui e voltei de Borges para Piglia, vivenciando a situação ao mesmo tempo privilegiada e incômoda de ler e reler, de fluir entre o original e o comentário, de tentar me situar entre textos diversos e não me perder no universo de signos em que deliberadamente eu me enredara. Mas Piglia me propiciou o alívio necessário, estendendo a rede onde me agarrei: “não existe nada simultaneamente mais real e mais ilusório do que o ato de ler”. Voltei ao território do “ultimo leitor”, sem a pretensão de sê-lo, concedendo-me o direito de ler segundo meu interesse e minha necessidade. Fui das cartas de Kafka para os rastros de leitura de Ernesto Guevara, da literatura mais experimental, a de Joyce, para a literatura policial de Poe, Chandler e dos detetives conhecedores de literatura. “O lampião de Ana Karênina” me devolveu ao mundo das personagens leitoras:
“O romance de Tolstoi constrói a imagem do que poderíamos chamar a leitora de romances que decifra a própria vida através dos fatos ficcionais da intriga, que vê no romance um modelo privilegiado de experiência real. Manifesta-se assim uma tensão entre a experiência propriamente dita e a grande experiência da leitura. É aí que aparece o bovarismo, a ilusão de realidade da ficção como marca do que falta na vida”.
Tentando resumir aqui o que mais me atraiu na leitura de O último leitor, me dou conta de que não sei dizê-lo, pelo menos não com certeza. Talvez porque este seja um livro cuja leitura não acaba, um livro que se abre para centenas de outros, um livro dentro de um biblioteca infindável. Talvez porque eu quisesse me encontrar num só dos modelos de leitor e tenha me visto leitora múltipla, ora ligeira, ora voraz, ora profunda, ora desconfiada, intrigada e curiosa sempre.
Piglia, que havia escrito, em Formas breves:“A leitura é a arte de construir uma memória pessoal a partir de experiências e lembranças alheias”
inundou minha memória com a sua e tenho que administrar esta enxurrada que invadiu os contornos da microscópica cidade que é a minha momentânea cidade circular. Mas o que sei é que aceito, com prazer, a herança e que ele se junta, no meu nicho de guias prediletos de leitura sobre leituras, a Alberto Manguel, que depois de Uma história da leitura me presenteou com um diário de leituras: Os livros e os dias (Um ano de leituras prazerosas) e, claro, a Ítalo Calvino, que em seu romance Se um viajante numa noite de inverno, eleva as figuras do leitor e da leitora a personagens principais da obra que constroem com suas leituras. O que sei também é que gosto de viajar bem acompanhada!



  • 1. Ricardo Piglia. O último leitor. São Paulo : Companhia das Letras, 2006.






  • Dobras da Leitura
    Ano VIII - N.º 47 - ago. 2007
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