Lendo Alessandro Baricco
Tânia Piacentini


Muitas vezes acontece de eu imaginar condições ou épocas especiais para ler os livros de algum escritor que me interessa, como que protelando o encontro. Sem ansiedade, mas com curiosidade e atenção renovadas ora por uma nota em algum jornal, ora por uma resenha, uma foto, uma citação ou toda uma matéria em revista ou caderno literários, ou pelo encontro casual com um livro seu numa livraria. Foi assim o meu caso com Alessandro Baricco, ou melhor, com a literatura dele.
A primeira vez que me interessei por ela foi na França, em Paris, não lembro mais o ano, pode ter sido em 1992: mas lembro bem que foi através da Radio France, num daqueles adoráveis programas de entrevistas e comentários que existem nas rádios da rede pública francesa, tratando de temas de diferentes áreas da cultura e do conhecimento. Num programa semanal sobre livros, o destaque era Baricco, pois uma obra sua acabava de ser traduzida e editada, e merecera elogios da crítica francesa. Acho até que ele havia recebido um prêmio, e vendo as orelhas dos livros que finalmente comprei, há poucos dias e aqui mesmo, bem pode ter sido o Médicis Étranger para o Mundos de vidro (Castelli di rabbia, em italiano), seu romance de estréia em 1991.

Não sei se já naquela ocasião a justificativa para protelar a leitura era a que durante muitos anos eu mantive como a principal: eu queria ler Baricco em italiano, não em traduções. Seria uma boa maneira de melhorar meu parco conhecimento da língua de meus antepassados, e de novo viajar para comprar os livros que eu procuraria nas livrarias italianas. Confesso que livros e viagens são a parte essencial do meu sonho de consumo, que tem se concretizado mais através das minhas viagens nos livros, nessa época de R$ pobreza (será que vai passar?). E me mantive fiel a este propósito, fortalecida pela leitura de um artigo de Mario Vargas Llosa no Caderno 2 – Cultura, do O Estado de São Paulo (03/12/2000), sobre o escritor italiano e seus projetos culturais. Além de escrever muito e bem – Vargas Llosa diz que ele é “autor de magníficos romances, entre eles o misterioso, lacônico e perfeito Seda, de ensaios e textos teatrais e de estudos musicais”. Baricco mantém a Scuola Holden, para formar narradores, criou e produziu um espetáculo de leitura de textos literários que percorreu os teatros da Itália e tem uma livraria mais que especial. A descrição dos trabalhos do italiano aumentou minha curiosidade por sua obra e sua atuação tem me servido de inspiração para atividades e projetos da Sociedade Amantes da Leitura.
Pois bem, vencida pelo custo de vida que tem me impedido de viajar, e mesmo de importar livros, não resisti mais ao chamado dos livros de Alessandro Baricco e comprei dois, em bom português. E não me decepcionei, muito pelo contrário, e começo dividindo minhas impressões da leitura de Novecentos: um monólogo.

O autor abre o livro, antes mesmo da dedicatória, com uma explicação ao leitor


Novecentos: um monólogo
,
de Alessandro Baricco. trad.
Y. Figueiredo. Rocco, 2000.


sobre o gênero ao qual pertenceria o texto que agora lhe entrega, justificando assim o subtítulo. Ele conta que o escreveu para um ator e um diretor de teatro, que o encenaram num espetáculo estreado num festival italiano, dois meses antes da publicação em livro: a conversa tem setembro de 1994 como referência temporal. Mas o que intriga Baricco é a dúvida sobre o texto ser ou não uma peça de teatro, o que o colocaria nas estantes etiquetadas como dramaturgia. O novo elemento na discussão é o suporte material do texto: agora que o lê em livro, parece ao autor “mais um texto que oscila entre uma verdadeira entrada em cena e um conto para ser lido em voz alta”. E mesmo sem saber se existe um nome para textos assim, conclui que isto não lhe importa: “Parece-me uma bela história, que valia a pena ser contada. E me agrada pensar que alguém a lerá”.
E é realmente uma bela história, e muito bem contada, tão bem que se nem sempre eu tinha claro que era um texto para ser encenado, algumas vezes me pegava como espectador olhando para o palco e vendo a cena que a minha imaginação criara. Ou então eu me colocando no lugar do diretor e me perguntando como eu queria que fosse dita tal seqüência, ou que roupas usaria o ator, ou como seria o cenário para tal ou tal passagem. E ainda construí um filme, pois há cenas tão vivas e tão fortes que o protagonista se materializava tocando seu piano, cercado pela admiração e pelo silêncio de centenas de passageiros extasiados com a música que eu também ouvia. E a descrição da borrasca em alto mar, do baile do navio com o oceano ao ritmo da música que nascia dos dedos de Novecentos, a do duelo dos pianistas, o dia-a-dia no navio, o ir e vir entre as diversas classes: meu filme tinha as tintas, as cores, e a movimentação, o ritmo de Fellini. Meu Virginian tem um parentesco forte com Amarcord, confesso a pretensão! Sim, porque Novecentos

* O filme baseado no livro chama-se, no Brasil, A lenda do pianista do mar, direção de Giuseppe Tornatore, com os atores Pruitt Taylor Vince, o narrador da história e Tim Roth, o pianista. Tão bom quanto o que produzi lendo! Recomendo!
já foi filmado* e quando eu o vir já não será o meu filme, aquele que eu fotografei em minha mente durante o processo de leitura.

Copio a síntese publicada na quarta capa, pois ela dá uma boa idéia do enredo: “O Virginian era um navio a vapor que, nos anos entre as duas guerras, fazia o vaivém entre a Europa e a América com sua carga de biliardários, de emigrantes e de gente comum. Dizem que no Virginian se exibia, toda noite, um pianista extraordinário, de técnica excepcional, capaz de tocar uma música jamais ouvida antes, maravilhosa. Dizem que sua história era louca, que tinha nascido naquele navio e que dali nunca saíra. Dizem que ninguém sabia o porquê, mas, enquanto tocava, em sua cabeça se descortinava o mapa do mundo inteiro, desenhado a partir dos sinais que as pessoas carregavam consigo – seus cheiros, lugares, barulhos, sua história”.
Com estes ingredientes, Baricco construiu um belíssimo monólogo sobre um homem nascido na virada do décimo nono século, o NOVECENTOS, que, agregado como sobrenome do abandonado bebê, empresta nobreza e dignidade à linhagem de um herói moderno que sempre conservaria a estranheza, o mistério e a beleza de uma existência mítica.
Quando terminei de ler, comentei com uma amiga que se eu fosse ator, encararia o desafio de dizer o monólogo. Como mulher e não atriz, o desafio continua tentador, pois sou uma leitora que sempre defendeu a leitura em voz alta dos textos literários, tanto quando na vida profissional, no magistério superior, como na vida privada, nas rodas e conversas sobre livros e literatura. O próprio Novecentos diz, a certa altura: “Você não está verdadeiramente frito enquanto tiver de reserva uma boa história e alguém para quem contá-la”. Está decidido, prometo ler Novecentos em voz alta, como conto: terei ouvintes além de mim mesma, além daquele meu outro eu que sempre me visita, o meu “interruptor imprevisto que me chega de dentro?” Pouco importa, lerei em voz alta para “este visitante que também sou”. Mas isso quem me ensinou foi Fernando Pessoa, e essa já é uma outra história...




Dobras da Leitura
Ano VII - N.º 31 - mar. 2006
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