Sobre meus alinhavos
Tânia Piacentini
Domingo passado*, li Ferreira Gullar se dizendo um contumaz inventor de teorias. Uma das suas mais recentes invenções merece destaque: “uma das funções do artista é
criar o maravilhoso (ou o surpreendente), pela simples razão de que não encontramos no mundo maravilhas em quantidade suficiente para satisfazer a fome de maravilha que habita
as pessoas”.
A crônica fora motivada pelo livro Manual de Zoologia Fantástica, de Jorge Luis Borges, que, quando criança, em visita a um zoológico, se encantara com animais que
nunca vira – jaguares, abutres, bisões – em vez de se amedrontar diante deles. Gullar junta o texto de Borges ao seu e compara o encantamento das crianças com os animais ao
fascínio dos reis dos velhos mundos pelos animais exóticos, espantosos, que os colecionavam, talvez pela ilusão de que a posse os livraria do terror do desconhecido.
Acredito que, quando crescemos, é na arte que buscamos esse estado de encantamento que sacia momentaneamente nossa fome de maravilhas. A minha fonte mais profícua tem sido
a literatura. Alguém escreveu, sem nenhuma boutade, e eu copiei porque compartilho da idéia, que: “On peut croire à peu près tout ce qu’ il y a dans les romans, c’est sur
le reste qu’ il faut se poser des questions”.
Volto ao final do texto de Ferreira Gullar:
“Mas o animal mais fascinante dessa zoologia inventada é o a bao a qu, que habita a escadaria da Torre da Vitória,
em Chitor, donde se vê a mais bela paisagem do mundo. Vive em estado letárgico,
no primeiro degrau, e só ganha vida consciente quando alguém galga a escadaria;
ele então se coloca nos calcanhares do visitante e sobe prendendo-se nas bordas
dos degraus curvos e gastos pelos pés de gerações de peregrinos. E assim vai ele
ganhando forma e cor, mas só alcança sua forma perfeita no último degrau, quando quem
sobe é um ser elevado espiritualmente. Quando não consegue se formar totalmente,
o a bao a qu sofre, e sua queixa é um rumor quase imperceptível, como o roçar
da seda. Sua volta à vida é sempre muito breve, pois quando o peregrino desce,
ele cai para o degrau inicial, onde, já apagado e semelhante a uma lâmina de vagos
contornos, espera pelo próximo vistante”.
Encantada com essa história, fiz com ela outra fantasia: não seria o a bao a qu
um livro ao qual nós, os peregrinos em busca das maravilhas literárias, possibilitamos
criar forma e cor quando galgamos os degraus da longa e solitária escada chamada leitura?
Não é a leitura que conduz à extasiante paisagem que só se completa com o ponto final,
após a última palavra costurada definitivamente pelo autor do texto?
Pois bem, é para que o livro – romance, conto, novela, poema, crônica, ensaio,
enfim, o texto urdido em palavras e ou palavras e imagens – o a bao a qu que
reencantou meu mundo – espalhe um pouco mais seu feitiço e não desça tão rapidamente
para o degrau inicial à espera de outro peregrino aleatório, que alinhavo algumas
peças sobre eles, a partir deles, com restos deles. Sem costuras definitivas,
puxando pouco a linha algumas vezes, apertando demais outras, misturando fios e cores.
Que eu sou de cortar largo e nunca aprendi a costurar, quando muito prego alguns botões.
Me contento em alinhavar.
* no jornal Folha de São Paulo, 30 de Janeiro de 2005. E 12.
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